Walking Over Strings - A música como sobrevivência emocional no limite do silêncio
Walking Over Strings nasce na Venezuela como um gesto solitário de resistência estética e sensível. Não é uma banda no sentido tradicional, mas um território interno onde apenas um nome caminha entre fios de luz e ruína. Efraín Alejandro Méndezé o mentor, o único membro, o corpo e a mente por trás de tudo. Ele não reúne músicos, ele reúne estados de espírito. Cada composição surge como um fragmento de cidade vista à noite, cada acorde carrega o peso do concreto molhado, da solidão urbana e do pensamento que não dorme.
Desde o início, o projeto se afasta do black metal ortodoxo. O que interessa a Efraín não é a fúria pela fúria, mas a atmosfera que fica depois do impacto. O silêncio que ecoa quando a distorção se recolhe. Influenciado por trilhas sonoras, post rock, música experimental e pela estética do pós black metal, Walking Over Strings constrói músicas que se comportam como cenas de um filme que nunca foi filmado. Tudo é feito por ele. Instrumentos, gravação, arranjos, produção. Um homem contra o excesso do mundo, criando camadas para suportar a própria lucidez.
Os primeiros lançamentos aparecem como um fluxo quase incontrolável de criação. Em 2015 surgem obras que revelam um artista inquieto, dividido entre o impulso narrativo e a contemplação. Os álbuns não funcionam como coleções de faixas, mas como diários emocionais. Cada disco é uma tentativa de traduzir sentimentos que não cabem em palavras comuns. A música se torna linguagem alternativa para falar de memória, melancolia, observação e distância.
Com o passar dos anos, a sonoridade se torna mais refinada, mais cinematográfica e mais introspectiva. As guitarras deixam de ser apenas ferramentas de peso e passam a desenhar paisagens. Os ritmos respiram, desaceleram, aceleram de forma orgânica, como pensamentos que entram em espiral. Walking Over Strings não busca resposta, busca permanência no instante. É música feita para atravessar noites longas, ruas vazias e estados mentais que não pedem companhia.
Efraín Alejandro Méndez segue como um arquiteto de emoções discretas, alguém que prefere construir pontes invisíveis entre som e sentimento, sem pressa, sem concessões. O projeto continua evoluindo como uma entidade viva, silenciosa e intensa, ainda caminhando sobre cordas frágeis, ainda olhando para a cidade, ainda escrevendo capítulos que não se fecham porque a história ainda respira, ainda pulsa, ainda não terminou e continua depois.
Cada obra posterior aprofunda essa sensação de deslocamento e permanência ao mesmo tempo. Walking Over Strings passa a soar menos como um projeto musical e mais como um estado contínuo de consciência. As composições se estendem, respiram em camadas lentas, permitem que o ouvinte se perca sem perceber o tempo. Há um cuidado quase obsessivo com o espaço entre os sons, como se o vazio também fosse um instrumento. Nada é gratuito. Cada nota surge para sustentar uma emoção que não encontra abrigo fora da música.
A identidade visual e conceitual acompanha essa postura introspectiva. Títulos sugerem janelas, luzes artificiais, noites frias e paisagens internas. Não existe a necessidade de explicar tudo. O projeto confia na sensibilidade de quem escuta. A ausência de letras tradicionais em muitos momentos reforça essa linguagem aberta, onde o sentimento antecede qualquer narrativa concreta. Walking Over Strings não conduz, apenas abre caminhos.
Mesmo sendo um trabalho solitário, o alcance emocional não é pequeno. Há uma conexão silenciosa com quem vive a angústia da repetição urbana, com quem observa o mundo de fora, com quem carrega a sensação de estar sempre um passo distante de tudo. A música funciona como abrigo temporário, não para curar, mas para compreender. Ela não promete redenção. Apenas acompanha.
Efraín mantém o projeto distante de movimentos de mercado ou exposições excessivas. Não existe urgência em se afirmar, apenas em continuar criando. Cada lançamento surge como necessidade íntima, não como produto. Walking Over Strings permanece fiel à ideia de caminhar sem pressa, aceitando o risco da queda, aceitando o peso da solidão como matéria criativa.
O futuro do projeto não se anuncia com clareza e talvez nem precise. Enquanto houver inquietação, memória e silêncio suficiente para ser moldado em som, Walking Over Strings seguirá existindo, atravessando noites, acumulando camadas de sentido, observando o mundo por dentro, esperando o próximo impulso surgir do escuro, do pensamento suspenso, do instante em que tudo parece parar e algo novo começa a se formar lentamente, ainda sem nome, ainda em construção.
Nesse ponto da trajetória, Walking Over Strings já não pertence apenas ao seu criador. O projeto passa a existir como uma entidade autônoma, um reflexo distorcido que devolve ao ouvinte aquilo que ele tenta esconder de si mesmo. As músicas não pedem atenção imediata, exigem entrega. Elas se revelam aos poucos, como a cidade quando observada da janela durante a madrugada, quando o ruído diminui e a mente começa a falar mais alto.
A estrutura das composições se afasta de qualquer lógica previsível. Não há fórmulas, não há refrões que confortam, não há caminhos seguros. O som cresce e se dissolve com naturalidade, guiado por sensações e não por regras. O peso surge quando precisa surgir e desaparece quando já cumpriu sua função. Tudo é fluido, tudo é instável, como o próprio estado emocional que dá origem a cada faixa.
Walking Over Strings também carrega um sentimento constante de movimento interior. Não é uma música estática, mesmo nos momentos mais lentos. Existe sempre algo se deslocando por baixo da superfície, uma tensão silenciosa, uma expectativa contida. O projeto fala de emoções sem nome, de pensamentos que circulam sem destino, de noites que parecem intermináveis. Não há desespero explícito, apenas uma melancolia lúcida, consciente de si.
Efraín Alejandro Méndez segue criando a partir desse lugar íntimo, onde o som funciona como tradução do que não pode ser dito. Ele não se repete, porque cada fase emocional gera uma nova forma de expressão. O projeto cresce por dentro, acumulando experiências, observações e silêncios. Walking Over Strings permanece como um registro contínuo de sensações, um arquivo emocional aberto, que se transforma junto com o tempo, com a vida, com o desgaste natural de quem sente demais e ainda assim continua caminhando, mesmo quando tudo parece frágil, mesmo quando o chão oscila, mesmo quando o futuro ainda não se deixa ver, porque a caminhada não termina aqui e o próximo passo ainda está sendo pensado, ainda está sendo sentido.
Os álbuns funcionam como marcos dessa caminhada interior. Cada um surge como um capítulo distinto, não fechado em si, mas conectado por uma mesma sensação de observação e recolhimento. Me, the Night and the City aparece como o primeiro contato com esse universo, um registro ainda cru, mas carregado de intenção. As músicas soam como deslocamentos noturnos, ruas vazias, luzes refletidas no asfalto molhado. Existe ali um diálogo constante entre peso e contemplação, como se a cidade fosse um espelho da mente em estado de vigília permanente.
No mesmo período, One Window, One Story… aprofunda essa ideia de narrativa fragmentada. Cada faixa parece observar o mundo a partir de um ponto fixo, como alguém que assiste a própria vida de fora. O som se torna mais delicado em certos momentos, mais introspectivo, menos interessado em impacto e mais preocupado em criar atmosfera. É um álbum que respira solidão, mas uma solidão que observa, que registra, que pensa.
Com Simple Kaleidoscope, o projeto entra em uma fase de maior maturidade sensorial. As camadas se multiplicam, os arranjos se tornam mais sutis e ao mesmo tempo mais densos. As emoções se movem em círculos, mudam de forma, se reorganizam. O título não engana. A simplicidade aparente esconde uma complexidade emocional constante, como sentimentos que se repetem, mas nunca da mesma maneira.
Em I, Emotion, a música se volta ainda mais para dentro. O álbum soa como um inventário de estados internos, sem máscaras. As composições carregam uma carga emocional mais direta, menos filtrada. Há fragilidade, há tensão, há um esforço claro de transformar sensação em som sem suavizar as bordas. É um trabalho que não busca agradar, apenas existir como expressão honesta de um momento específico.
Neon Borealis surge como um fechamento provisório desse ciclo. O som ganha contornos mais expansivos, quase contemplativos, como se a escuridão agora refletisse luz artificial. As músicas se estendem, constroem paisagens amplas, frias e distantes. Existe uma sensação de aceitação silenciosa, de continuidade, de olhar para frente sem abandonar o peso acumulado. Não é um fim, mas uma pausa consciente, um ponto de observação antes do próximo movimento.
Cada álbum de Walking Over Strings não responde ao anterior, apenas o prolonga. São registros de tempo, memória e sensação, organizados sem pressa, sem a necessidade de conclusão. A discografia permanece aberta, como a própria experiência humana, sempre incompleta, sempre em processo, sempre aguardando o próximo som nascer do silêncio que ainda envolve tudo, enquanto a história segue, ainda em escrita, ainda sem ponto final.
E é justamente por nascer na Venezuela que Walking Over Strings carrega um peso que vai além da música. Criar arte extrema em um país que não ocupa o mapa tradicional do metal é um ato de insistência emocional, quase um gesto político silencioso. Não há cena consolidada, não há estruturas sólidas, não há holofotes. Há escassez, instabilidade, ruído externo constante. Ainda assim, Efraín Alejandro Méndez escolhe o caminho mais difícil. O da introspecção profunda, o da criação solitária, o da fidelidade absoluta ao que sente.
Walking Over Strings não grita por atenção. Ele existe apesar de tudo. Enquanto o mundo associa o metal a centros óbvios, esse projeto surge do sul, da margem, do lugar onde criar é sobreviver. A música carrega essa tensão invisível, essa sensação de caminhar sobre algo frágil, sabendo que qualquer passo pode falhar. Não há pose, não há arrogância, apenas verdade emocional.
A Venezuela aparece não como bandeira, mas como atmosfera. Está no sentimento de isolamento, na melancolia persistente, na lucidez que nasce da dificuldade. Cada álbum soa como um registro de resistência íntima, como alguém que se recusa a silenciar mesmo quando o entorno insiste em esmagar qualquer tentativa de expressão sensível. Walking Over Strings prova que o metal não pertence a territórios, mas a estados de espírito.
No fim, o projeto permanece como uma voz baixa, porém firme, ecoando de um lugar improvável. Um testemunho de que a dor, a contemplação e a beleza também florescem onde ninguém costuma olhar. Caminhar sobre cordas, vindo da Venezuela, é aceitar o risco constante e ainda assim seguir adiante. Sem promessas, sem garantias, apenas com som, emoção e a coragem silenciosa de continuar existindo quando tudo ao redor parece ruir.
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