Há bandas que constroem sua identidade na grandiosidade dos álbuns longos, e outras que encontram no formato curto a chance de revelar um retrato direto, quase cru, de quem são naquele momento. O novo EP do Blackwater Holylight, If You Only Knew, lançado em abril de 2025 pela Suicide Squeeze, é exatamente isso: um mergulho breve, mas intenso, em quatro canções que transitam entre melancolia, peso e uma espécie de catarse coletiva que só a banda parece dominar.
Desde sua estreia, o quarteto de Portland se destacou pela habilidade de equilibrar contrastes riffs densos que parecem ruir montanhas convivem lado a lado com melodias vocais frágeis, quase confessionais. Aqui, esse jogo se intensifica: cada faixa parece falar tanto do enfrentamento individual quanto da partilha universal das incertezas.
“Wandering Lost” abre o disco com a força de um ritual. Um piano etéreo e a voz delicada de Sunny Farris convidam para um espaço de contemplação, mas logo a música se ergue como uma onda: guitarras carregadas de fuzz e uma bateria monumental transformam a tristeza em energia coletiva. É o tipo de canção que parece nascer da dor, mas se transforma em comunhão.
Na sequência, “Torn Reckless” mergulha no território do shoegaze e do dream-pop, deixando que camadas de guitarras envolvam o ouvinte como uma névoa elétrica. A voz surge em meio ao turbilhão, às vezes quase apagada pela parede sonora, reforçando a sensação de dúvida e transição que a letra sugere. É como estar diante de uma porta que se abre para algo desconhecido: hesitação e fascínio em igual medida.
Virando o lado, “Fate Is Forward” mostra a banda brincando com a dinâmica do alt-rock dos anos 90, alternando calmaria e explosão. É talvez a faixa mais terrena do EP, com uma energia quase grunge, mas ainda marcada pelo refinamento atmosférico que é assinatura do grupo. A letra fala sobre aceitar que certos obstáculos são intransponíveis e que, em vez de insistir, é preciso aprender a seguir em frente uma mensagem que ecoa de forma simples, mas poderosa.
O encerramento vem com uma ousadia: uma versão de “All I Need”, clássico do Radiohead. Em vez de reproduzir a intensidade claustrofóbica do original, o Blackwater Holylight expande a canção para um horizonte mais amplo, feito de drones, camadas hipnóticas e uma sensação de desespero que não sufoca, mas envolve. É um tributo respeitoso e, ao mesmo tempo, uma afirmação de identidade prova de que a banda não teme dialogar com gigantes, mas o faz à sua maneira.
Na produção, as escolhas também reforçam os contrastes: as duas primeiras músicas, sob comando de
Sonny DiPerri, soam mais polidas e envoltas em reverberações, enquanto as últimas, registradas com Dave Schiffman, têm pegada mais direta e crua. Essa divisão não quebra a unidade; pelo contrário, dá ao EP duas faces complementares, como se mostrasse o grupo em dois espelhos diferentes.
No fim, If You Only Knew é menos sobre respostas e mais sobre perguntas. É um trabalho que respira incerteza, transição e vulnerabilidade, mas que também ergue muralhas sonoras para transformar fragilidade em força. Em apenas quatro músicas, o Blackwater Holylight reafirma o que já sabíamos que é uma das bandas mais singulares da cena atual e insinua que o futuro ainda guarda caminhos inesperados.
Nota pessoal: um trabalho curto, mas profundo, que deixa o ouvinte em suspensão. Um passo corajoso que merece ser ouvido de olhos fechados e coração aberto.
O Mortem Solis é um projeto solo nascido em São Paulo, idealizado pela artista conhecida como Null. Desde a sua origem em 2023, o projeto se consolidou como uma das vozes mais autênticas do underground nacional, carregando em sua essência o peso do black metal cru e a introspecção quase ritualística de atmosferas obscuras.Ao contrário de muitos grupos que se apoiam na coletividade, o Mortem Solis sempre foi a expressão individual de uma só mente. Null Mortem transforma isolamento em linguagem, convertendo silêncio, dor e espiritualidade em música. Essa solidão não é uma fraqueza é a força motriz que dá identidade ao projeto.A estreia se deu com a demo “Lamentos do Alvorecer”, lançada em formato digital e posteriormente em fita cassete, já revelando a proposta de sonoridade lo-fi, repleta de melodias frias e letras mergulhadas na melancolia. Aos poucos, a sonoridade foi se expandindo para incluir nuances mais atmosféricas, mantendo sempre o caráter cru e direto.
Entre 2024 e 2025, Mortem Solis amadureceu artisticamente com singles como “The Hermit Song”, “O Eterno Se Esvai…” e “Fragile Hope”, preparando terreno para a obra mais ambiciosa: o álbum de estreia “Hermetic”, lançado em julho de 2025.
“Hermetic” não é apenas um registro musical é um manifesto existencial. Aqui, Null apresenta não só composições, mas também uma cartografia da alma em conflito, um mapa onde solidão, morte e esperança rarefeita se entrelaçam.
A jornada começa com “Nós, Pássaros Cadavéricos”, uma introdução breve que parece um grito de corpos que insistem em voar mesmo após a morte. É um prólogo sombrio, quase um rito de abertura, que avisa: a partir daqui, não se volta mais.
Em seguida, “O Eterno Se Esvai...” mergulha no tema da finitude, traduzindo em som o desgaste do tempo e a inevitabilidade do fim. O riff carrega o peso do desmoronar, enquanto a voz distante ecoa como se fosse já um espectro.
“The Hermit Song”, lançada como single meses antes, é a peça central conceitual do disco. A figura do
eremita surge como guia e espelho: aquele que se afasta do mundo não por covardia, mas por sabedoria. É uma faixa meditativa, onde a atmosfera se sobrepõe à brutalidade, e a solidão ganha contornos quase sagrados.
A quarta faixa, “Anunciadora da Morte”, devolve o ouvinte à agressividade e ao frio cortante do Black Metal cru. É um aviso, uma presença inevitável, como a sombra que se projeta antes que a lâmina caia.
E então chegamos a “Eco do Silêncio”, o momento mais longo e profundo do álbum. Aqui o vazio é tratado como entidade. Não é apenas a ausência de som, mas uma presença sufocante, uma força que molda e oprime. A cada verso, a cada riff dilatado, o silêncio se torna um personagem vivo, conduzindo o ouvinte a confrontar sua própria solitude.
Após o mergulho profundo em “Eco do Silêncio”, o álbum se abre para “Fragile Hope”, uma das faixas mais contrastantes de todo o trabalho. Se até então Mortem Solis havia se debruçado sobre a morte, o isolamento e o vazio, aqui encontramos uma fagulha quase improvável a fragilidade da esperança. Mas é importante frisar não se trata de uma esperança solar, redentora ou triunfante. É uma chama que treme diante do vento, uma centelha que sobrevive apesar do peso esmagador do mundo. Musicalmente, essa dualidade se traduz em passagens melódicas mais delicadas que se enroscam em guitarras ásperas, como se a própria música lutasse para permanecer de pé.
Na sequência, “Ode to Melancholy” surge como um fechamento simbólico. Ao optar por encerrar o álbum com uma ode à melancolia, Null reforça a linha mestra do projeto: a aceitação da tristeza como parte intrínseca da existência. Não há aqui a tentativa de escapar da dor, mas de compreendê-la, quase reverenciá-la. A escolha de encerrar com um cover também sugere um diálogo, uma ponte entre a criação autoral e a tradição, como se Mortem Solis estivesse inserindo sua voz em uma corrente mais ampla da arte sombria.
Com isso, “Hermetic” se estabelece não apenas como um disco de estreia, mas como um marco conceitual dentro da trajetória da banda. Cada faixa funciona como um capítulo, cada letra como fragmento de um livro sagrado escrito em sombras. O álbum não busca agradar ou entreter ele exige entrega total, quase como um ritual.
Mas ainda resta aprofundar algumas camadas dessa banda , assim como a estética visual dialoga com as músicas, de que forma a produção lo-fi contribui para a autenticidade da obra, e como esse trabalho se insere no cenário do Black Metal contemporâneo.
Deixe-se atravessar por esse silêncio. Permita que a melancolia encontre morada. Conheça Mortem Solis e talvez descubra, no eco de suas músicas, uma parte adormecida de si mesmo.
Sadness nasceu das mãos e da sensibilidade de Damián Ojeda, músico norte americano que construiu uma carreira singular fora dos grandes circuitos e longe de fórmulas comerciais, sua obra transita por um território híbrido onde o blackgaze, o post rock, o shoegaze e a música ambiente se encontram e se entrelaçam, criando paisagens sonoras que parecem vindas de um lugar onde a memória, a nostalgia e a melancolia se dissolvem em névoas de guitarra e reverberação, Damián é um criador incansável, capaz de lançar múltiplos trabalhos em um único ano sem abrir mão da profundidade e da honestidade artística, seu processo é solitário e artesanal, gravando e produzindo em espaços íntimos que se tornam laboratórios de emoção e textura, sua assinatura é reconhecida pela forma como combina intensidade abrasiva e delicadeza quase frágil, gerando uma atmosfera que prende o ouvinte em uma espécie de transe contemplativo
Abriction, por sua vez, é um projeto mais recente, mas que já carrega uma maturidade sonora rara, seu criador, igualmente dedicado a explorar emoções profundas por meio da música, constrói universos onde a amplidão e o silêncio têm tanto peso quanto as notas e as melodias, seu trabalho se apoia no shoegaze e no post rock, mas também bebe de fontes etéreas, criando composições que parecem suspensas no tempo, o foco está na construção de atmosferas amplas e sensíveis, com arranjos que abraçam o ouvinte e o conduzem a um estado de contemplação, há uma preocupação evidente com o detalhe e com a fluidez, como se cada faixa fosse um quadro pintado com camadas finas e translúcidas, sobrepostas até criar profundidade
Essa afinidade estética e emocional levou Sadness e Abriction a unirem forças no split That Lasts Forever, lançado em julho de 2025, a obra não se apresenta como a justaposição de dois estilos, mas como a fusão natural de duas linguagens que partem do mesmo ponto e caminham em direções paralelas, as seis faixas que compõem o álbum ultrapassam uma hora de duração e funcionam como capítulos de um mesmo livro, onde cada artista contribui com sua visão, mas ambos se encontram no terreno comum da melancolia bela e da emoção que transborda, Sadness oferece peças longas e expansivas como Glistening in the March Lowsun e I Left a Message for You, que alternam momentos de catarse com passagens íntimas e serenas, enquanto Abriction entrega composições igualmente densas e envolventes como The Light That Brims the Clouds e My Heart Is Your Home, em que a delicadeza melódica se equilibra com uma força interna quase invisível, mas sempre presente
O resultado é uma jornada sonora que convida o ouvinte a mergulhar sem pressa, o álbum não exige atenção, mas a conquista naturalmente, como uma conversa calma ao fim da tarde, as camadas instrumentais são construídas com paciência, criando transições que nunca soam abruptas, há uma sensação de continuidade que une todas as faixas, como se fossem parte de uma única e extensa peça, essa coesão é reforçada pela produção íntima e pelo cuidado com a dinâmica, onde o peso não é usado como choque, mas como elemento complementar à fragilidade
That Lasts Forever é mais do que um registro de colaboração, é um manifesto silencioso sobre afinidade artística, sobre como dois criadores, cada um com seu universo próprio, podem dialogar de forma tão profunda a ponto de dissolverem as fronteiras entre suas vozes, o álbum não busca o impacto imediato, mas a permanência, não se prende ao instante, mas ao que resiste ao tempo, e é justamente nessa resistência que reside sua força, pois ao final da última faixa, o que permanece não é apenas a lembrança da melodia, mas a sensação de ter habitado um lugar que continua vivo mesmo no silêncio que se segue.
Esse silêncio que se segue não é vazio, mas um espaço carregado de ressonâncias, como se as notas ainda vibrassem no ar e dentro de quem ouviu, é nesse intervalo que a música de Sadness e Abriction mostra sua verdadeira permanência, pois ela não se encerra no momento em que cessa o som, ela continua a se mover, a se transformar em memória sensorial, em fragmentos de imagens, em sentimentos que não se deixam traduzir em palavras, é uma presença que permanece de forma quase invisível, mas profundamente sentida
A natureza introspectiva de That Lasts Forever se manifesta não apenas no tom das composições, mas na maneira como cada faixa parece falar diretamente com a parte mais silenciosa de quem escuta, existe uma honestidade rara aqui, uma recusa em adornar ou dramatizar para agradar, a música segue seu próprio curso, lenta ou intensa conforme a necessidade da emoção que carrega, e essa liberdade de forma dá ao álbum um caráter quase orgânico, como se ele tivesse crescido sozinho, apenas orientado pelo instinto e pela sensibilidade de seus criadores
A união entre Sadness e Abriction também se revela como um gesto de confiança artística, pois ao compartilhar um espaço tão íntimo, ambos se permitem ser vulneráveis diante do outro e do público, não há disputa de protagonismo, não há necessidade de provar quem é mais intenso ou mais delicado, o que há é uma soma de forças que resulta em algo maior do que qualquer um dos dois poderia alcançar sozinho, é o tipo de encontro que não se planeja, mas que acontece quando dois caminhos criativos se cruzam no momento certo
O impacto desse trabalho sobre quem se dispõe a ouvi lo com atenção não se limita à experiência sonora, ele se infiltra no dia a dia, surgindo em lembranças aleatórias, em instantes de calma ou de turbulência, funcionando como um reflexo de estados de espírito que nem sempre conseguimos nomear, That Lasts Forever não é apenas um título, é uma promessa que o próprio álbum cumpre, um testemunho de que há músicas que resistem ao tempo porque carregam em si algo que o tempo não consegue corroer, algo que, mesmo em silêncio, continua a respirar dentro de cada lembrança que ele desperta, como um sopro discreto que mantém acesa a chama de uma emoção que não se apaga, esse respirar é o que mantém o álbum vivo mesmo quando não está sendo tocado, é o que faz com que, dias ou semanas depois, um fragmento de melodia ou uma sensação difusa volte à mente sem aviso, trazendo consigo a mesma atmosfera densa e reconfortante que marcou a primeira escuta
Esse fenômeno não é fruto do acaso, mas do cuidado meticuloso que Sadness e Abriction colocam em cada detalhe, há um entendimento profundo de que a música não precisa apenas preencher o espaço sonoro, ela precisa criar um espaço novo dentro do ouvinte, um lugar seguro onde se possa revisitar dores antigas, saudades e momentos de quietude sem que haja a urgência de superá los, aqui a tristeza não é um obstáculo, mas um terreno fértil para reflexão e beleza, cada acorde e cada pausa parecem desenhados para sustentar essa experiência
Com o tempo, percebe se que That Lasts Forever também funciona como um diálogo silencioso entre passado e presente, entre aquilo que se perdeu e aquilo que ainda pulsa, as faixas não se contentam em narrar sentimentos, elas os recriam, colocando o ouvinte no centro de um cenário sonoro que se molda conforme a sua própria história pessoal, é por isso que o álbum se adapta a diferentes momentos da vida, assumindo novas cores e significados a cada reencontro
Assim, o que permanece não é apenas a música gravada, mas a possibilidade infinita de que ela renasça em cada escuta, como se fosse a primeira vez, esse é o verdadeiro sentido de durar para sempre, não ser imutável, mas estar sempre pronto para se transformar junto com quem o acolhe, e nesse fluxo contínuo Sadness e Abriction constroem não apenas um registro fonográfico, mas uma obra viva, feita para existir tanto no som quanto no silêncio, tanto no instante quanto na memória, onde cada fragmento sonoro encontra um abrigo próprio, protegido das erosões do tempo e das distrações do cotidiano, é ali que That Lasts Forever se fortalece, porque a lembrança não o congela, mas o reinventa, recriando as cores, as texturas e até mesmo os sentimentos que ele provocou, às vezes com uma fidelidade quase fotográfica, outras vezes com a liberdade difusa dos sonhos, a memória trata o álbum como se fosse um objeto de afeto, guardando o essencial e permitindo que o restante se transforme, como a luz que muda de intensidade ao atravessar uma cortina
Essa presença constante na memória é o que torna o encontro entre Sadness e Abriction tão especial, pois não é uma música que se consome, é uma música que se carrega, que se leva para longe e que se deixa amadurecer junto com quem a escutou, há álbuns que brilham no instante e depois se apagam, mas este opta por outro caminho, preferindo se infiltrar devagar, quase despercebido, até se tornar parte da narrativa íntima de cada ouvinte
E talvez seja por isso que, mesmo quando o tempo avança e outras canções chegam para disputar espaço, That Lasts Forever continua ali, como um perfume reconhecível no ar, como uma lembrança que não pede licença para surgir, trazendo de volta aquela mistura precisa de melancolia e serenidade, e é nesse retorno que se entende que a obra não está apenas guardada na memória, ela vive nela, pulsando em silêncio, à espera de um novo instante para se revelar por inteiro, como se cada retorno fosse também uma despedida lenta, um reencontro que já nasce com o peso de saber que vai terminar, a música se derrama como um último raio de luz antes que a noite feche as cortinas, e o que fica é um frio silencioso, denso, que se infiltra pelas frestas da alma, é nesse ponto que o álbum deixa de ser apenas som e se torna ausência, como se cada acorde fosse a lembrança de algo que não volta, como se cada pausa fosse um aviso de que o vazio é inevitável, no fim That Lasts Forever não é apenas sobre o que dura, mas sobre a certeza cruel de que mesmo o que permanece, um dia, dentro de nós, se apaga devagar, até não restar nada além do eco distante de uma melodia que já não conseguimos ouvir, mas que ainda pesa, pesada como o silêncio que vem depois do último suspiro.
Woods of Ypres – Woods 5: Grey Skies & Electric Light
é um álbum que se apresenta como uma das expressões mais sinceras e
melancólicas dentro do metal contemporâneo. Lançado em 2012, após a morte
prematura de David Gold, mente criativa e emocional da banda, o disco carrega
um peso quase profético em suas letras e atmosferas. É como se cada faixa fosse
escrita com a consciência do fim, envolta em uma névoa de reflexão sombria,
aceitação e desencanto.
A sonoridade do álbum se distancia do black metal cru dos
primeiros trabalhos da banda e mergulha de vez no Doom e no Gothic metal, com
passagens melódicas e vocais predominantemente limpos. Há uma clareza na
produção que não diminui o impacto das composições, mas ao contrário, expõe
cada arranjo com precisão quase cirúrgica. O ritmo é lento, arrastado, como se
cada acorde fosse uma etapa de um luto ainda em curso. A bateria, tocada pelo
próprio Gold, é contida, cadenciada, marcada pela intenção emocional mais do
que pela técnica.
Liricamente, o disco é um mergulho profundo nas fraturas da
existência humana. Faixas como "Career Suicide (Is Not Real Suicide)"
desafiam convenções e exploram a dor com uma franqueza desconfortável. Em
"Adora Vivos", Gold implora que as pessoas valorizem os vivos em vez
de apenas reverenciar os mortos, sugerindo uma crítica à forma como lidamos com
a memória e o reconhecimento. "Lightning & Snow" abre o álbum com
uma sensação de fúria resignada, enquanto "Finality" se aproxima de
um tom quase espiritual, aceitando o fim com um misto de tristeza e paz.
O uso de instrumentos menos convencionais para o gênero,
como oboé e violoncelo, adiciona uma dimensão atmosférica que eleva o disco a
um patamar quase cinematográfico. As melodias são construídas com cuidado,
muitas vezes repetitivas, criando um ciclo emocional que prende o ouvinte em
uma espiral introspectiva. Cada faixa parece dialogar com a anterior, não
apenas em tom, mas em conteúdo, criando um fio narrativo que transforma o álbum
em uma jornada única, quase como uma carta aberta ao vazio
existencial que assombra cada gesto, cada decisão, cada
silêncio. David Gold não escreve como um poeta que observa a tristeza de longe;
ele a vive, a sussurra, a grita em cada verso. Em "Modern Life
Architecture", por exemplo, há uma crítica dura à artificialidade das
escolhas modernas, à maneira como construímos vidas em torno de metas vazias,
esquecendo a essência do que nos torna humanos. Não há aqui redenção fácil, nem
esperança camuflada apenas constatações amargas entregues com uma beleza fria e
lúcida.
Os vocais de Gold oscilam entre o canto limpo, carregado de
resignação, e momentos de gutural
controlado, usados com parcimônia, sempre a
serviço da emoção. Essa escolha reforça o caráter meditativo do álbum, que
parece mais interessado em fazer pensar do que em provocar. Há peso, sim, mas
não aquele que se mede em distorção é o peso da existência, da perda, daquilo
que nunca foi dito e agora não pode mais ser.
O equilíbrio entre melodia e desespero é cuidadosamente
construído. "Kiss My Ashes (Goodbye)" talvez seja o exemplo mais
forte dessa fusão: com seus mais de dez minutos, a música é dividida em duas
partes que se complementam, como se narrassem um adeus em tempo real. O
instrumental cresce, colapsa, silencia, enquanto a voz de Gold surge como uma
presença fantasmal que ainda tenta se fazer ouvir entre as ruínas da memória.
É impossível ouvir esse álbum sem sentir a ausência presente
de seu criador. "Woods 5" soa como uma despedida involuntária, mas
estranhamente completa, como se tudo o que precisava ser dito já estivesse ali,
selado em sons e palavras que ecoam com um tipo de dor que não busca consolo. E
é justamente nessa crueza emocional que o álbum se torna tão singular. Ele não
oferece alívio. Ele não se desculpa. Ele apenas permanece, como uma sombra
persistente no canto da consciência uma sombra que não ameaça, mas também não
consola. Ela apenas existe, como a verdade incômoda de que tudo é passageiro e
de que o sentido, se existe, talvez esteja no ato de continuar apesar do vazio.
"Woods 5: Grey Skies & Electric Light" não é um álbum para ouvir
em qualquer momento. Ele exige entrega. Ele exige silêncio. É um trabalho que
parece respirar junto com o ouvinte, cada batida lenta do bumbo se confundindo
com o coração, cada riff carregado de luto se misturando às memórias pessoais
de quem escuta.
Ao longo do álbum, David Gold nunca assume o papel de guia
espiritual ou poeta redentor. Ele é mais um confidente que se senta ao lado do
ouvinte à beira do abismo, compartilhando dúvidas, cansaços e pequenas
epifanias sem a pretensão de resolvê-los. Em "Silver", por exemplo,
há uma mistura de sarcasmo e melancolia enquanto ele canta sobre a futilidade
das coisas que tentamos acumular para dar sentido às nossas vidas. A crítica
está ali, mas sem agressividade é quase como se ele dissesse: “veja, eu também
tentei”.
A estrutura das músicas reforça essa jornada emocional. Nada
parece encaixado para agradar fórmulas
de mercado ou expectativa de fãs. Há
faixas longas, com andamentos que não têm pressa, e há canções curtas, diretas,
como lampejos de lucidez. A dualidade entre “Grey Skies” e “Electric Light” céu
nublado e luz elétrica sintetiza essa tensão entre escuridão e artifício, entre
natureza e tecnologia, entre sentimento e distração. O título do álbum, aliás,
é um poema por si só, carregando uma ambiguidade que atravessa cada nota e cada
silêncio do disco.
Em termos de legado, “Woods 5” se destaca como uma despedida
artística raramente tão completa e autêntica. É difícil não pensar no álbum
como uma espécie de epitáfio musical, um documento final de alguém que estava
profundamente em contato com sua finitude e, ainda assim, decidido a registrar
cada centímetro de sua dor, raiva e aceitação. O impacto do álbum vai além da
sua sonoridade ou da sua importância dentro do metal ele toca em algo
universal, atemporal. Ele fala da morte sim, mas principalmente da vida, do que
ela pesa, do que ela exige, do que ela deixa quando termina.
“Woods 5: Grey Skies & Electric Light” é um espelho
embaçado da alma humana, um relicário de pensamentos que muitos têm medo de
formular em voz alta. Ele não pede desculpas por sua escuridão; ao contrário, a
celebra. É um lembrete brutal de que a existência é frágil, muitas vezes
absurda, e quase sempre marcada pela ausência de sentido, de tempo, de consolo.
A tragédia da morte de David Gold, ocorrida meses antes do
lançamento do disco, não é apenas um fato biográfico, mas uma presença
fantasmagórica que habita cada faixa. Ele morreu em um acidente de carro na
véspera do Natal de 2011, aos 31 anos. A violência e a ironia dessa partida
repentina apenas amplificam o eco existencial de suas composições, como se o
próprio universo tivesse respondido à sua música com um silêncio definitivo.
E ainda assim, ele não se foi, não inteiramente. David Gold
permanece vivo entre riffs arrastados e versos sussurrados com amargura serena.
Sua voz continua a guiar os que buscam significado nas entrelinhas da dor, sua
poesia continua a tocar os que se sentem deslocados em um mundo que gira rápido
demais. A arte, como o amor e o luto, tem essa capacidade singular de resistir
ao tempo e à ausência. Cada vez que esse álbum é ouvido, é como se David
sentasse ao lado de alguém outra vez não para dar respostas, mas para lembrar
que, mesmo nas paisagens mais nubladas, há beleza no gesto de olhar para o céu.
“Grey Skies & Electric Light” é, portanto, mais do que
uma despedida. É uma permanência. Um testamento de que, enquanto houver alguém
disposto a escutar, nenhuma voz se apaga por completo.
Evadne apresenta "The Fragile Light Of Fireflies", um álbum acústico onde melancolia e beleza se entrelaçam em uma jornada sonora intimista. Através de arranjos minimalistas e atmosferas etéreas, a banda reinterpreta e culmina seu trabalho anterior, "The Pale Light of Fireflies", com uma sensibilidade crua e evocativa.
O álbum conta com colaborações notáveis como Jaani Peuhu (Ianai, Mercury Circle, ex-Swallow The Sun), Mark Kelson (The Eternal), Carmelo Orlando (Novembre), Juan Escobar (Wooden Veins, Mar de Grises, Astor Voltaires), Carline Van Roos (Aythis, Lethian Dreams, Remembrance) e Natalia Drepina (Mourneress, Your Schizophrenia), trazendo novas dimensões emocionais à obra.
Mixado e masterizado no Pentasonic Studios por Sergio Peiró, o álbum se desdobra como uma peça delicada e profunda, onde cada acorde ressoa com a fragilidade da existência. A arte, criada por Natalia Drepina, reflete visualmente a essência etérea e introspectiva do álbum, capturando sua beleza melancólica. "The Fragile Light Of Fireflies" oferece aos ouvintes uma nova perspectiva sobre a essência de Evadne.
Ao despir suas composições até o âmago, Evadne revela nuances que antes se escondiam sob as camadas densas do doom melódico. Canções que antes rugiam com peso agora sussurram verdades profundas, transformando-se em confissões murmuradas ao ouvido do ouvinte. As vozes ganham um novo protagonismo, entrelaçando-se com harmonias acústicas que evocam paisagens desoladas, crepúsculos infinitos e a beleza silenciosa da solidão.
A presença dos convidados não apenas enriquece as texturas sonoras, mas aprofunda ainda mais o tom emocional da obra. Cada colaboração é um fio de luz tênue, que se junta ao brilho coletivo dessas pequenas "vaga-lumes" sonoras, iluminando a escuridão com uma luz tênue, porém constante. Há um senso de comunhão melancólica como se todos os artistas compartilhassem uma mesma dor, uma mesma lembrança que ecoa através do tempo.
Mais do que uma simples releitura, "The Fragile Light Of Fireflies" é um renascimento artístico e uma afirmação de que a força também reside na delicadeza, e que mesmo as sombras podem brilhar com intensidade própria. Neste trabalho, Evadne convida o ouvinte a desacelerar, escutar com o coração e permitir que cada nota, cada silêncio, revele algo sobre si mesmo.
Trata-se de um álbum feito para noites solitárias e almas sensíveis. Um tributo à vulnerabilidade, à memória e à beleza que persiste mesmo na mais tênue das luzes.
"The Fragile Light Of Fireflies" é mas uma experiência sensorial que convida à introspecção. Cada faixa surge como um suspiro suspenso no tempo, onde o som se transforma em paisagem e a emoção se desenha em formas quase tangíveis. Ao optar por uma abordagem acústica, Evadne rompe com a expectativa do peso tradicional do doom metal e, paradoxalmente, entrega um disco ainda mais devastador em sua honestidade emocional e ao final da audição, "The Fragile Light Of Fireflies" deixa uma impressão profunda e duradoura, como o brilho de uma lembrança que se recusa a desaparecer completamente. É um trabalho que exige atenção, entrega e, acima de tudo, vulnerabilidade. Evadne demonstra maturidade artística ao abrir mão da grandiosidade sonora para mergulhar no âmago da expressão humana.
CALLIOPHIS é uma banda de Death Doom Metal de Leipzig/da
Alemanha... que faz um ótimo trabalho ao equilibrar a tristeza pesada, a emoção
crua e a melodia. Faixa favorita: Krakonoš....O terceiro álbum da banda alemã
aprimora a essência do trabalho anterior, demonstrando da melhor forma o
profissionalismo e a habilidade dos músicos em combinar um som denso e limpo
com uma performance tecnicamente perfeita. Trata-se de doom death metal do mais
alto padrão, cruel e barulhento, mas não desprovido de atmosfera e,
principalmente, de individualidade e aura únicas. Música para uma audição
reflexiva, para uma nova experiência de sentimentos interiores, complementada
por um livreto de 16 páginas lindamente projetado para uma melhor dissolução
nas profundezas majestosas de "Liquid Darkness".....Calliophis é uma
banda de doom/death vinda da Alemanha e em 2021 eles estão de volta com seu
terceiro álbum completo, “Liquid Darkness”. Embora elementos de ambos os
subgêneros tenham sido entrelaçados na música, eu diria que a parte doom neste
caso é o fator dominante, não apenas por causa do ritmo continuamente lento,
mas também pelo foco pesado em harmonias tristes e uma atmosfera profunda e
envolvente. Não estou familiarizado com nenhum de seus trabalhos anteriores,
mas com base neste álbum, esses cavalheiros são especialistas quando se trata
de criar música que é capaz de rastejar sob a pele do ouvinte e deixá-lo para
trás com uma mistura de várias emoções.
Os riffs neste disco são absolutamente montanhosos, altos e
monótonos estrondos de desespero
chovendo sobre você. A atmosfera é assombrosa
durante todo o tempo de execução de mais de uma hora, contando principalmente
com melancolia e tristeza, proporcionadas pelas melodias cativantes das
guitarras principais. As músicas frequentemente atingem o auge com as coisas
explodindo em uma cacofonia de vocais estrondosos e guitarras contundentes,
antes de conduzirem calmamente às seções seguintes. Algumas faixas fluem com
uma distinta vibração de funeral doom, mas se expandem para um som
absolutamente massivo com alguns riffs de ritmo mais rápido e batidas técnicas
de bateria. O resultado final é nada menos que glória monolítica e deve
satisfazer cada fã do gênero. A música é absolutamente comovente desde os
primeiros momentos da faixa-título, com a grandiosidade prevalecendo em toda a
obra, e uma vez que você deixa o álbum exercer seu feitiço sobre você, ele não
o deixará ir antes que os últimos acordes tenham desaparecido.
Calliophis cria um tom muito mais sombrio do que muitos
artistas semelhantes, com linhas de guitarra lentas e depressivas apoiadas por
acordes principais estridentes e a batida poderosa da seção rítmica. Sempre que
eles aumentam o ritmo, eles atacam com alguns riffs de Death-Doom e um groove
de andamento médio, combinando brilhantemente com o clima inquietante. Os
vocais são realmente impressionantes, exibindo um tom emotivo que contrasta
perfeitamente com a instrumentação sufocante. Apesar de as músicas frequentemente
ultrapassarem a marca dos dez minutos, há bastante coisa acontecendo para
manter o ouvinte engajado. O fluxo das faixas e de todo o álbum é quase
impecável, e os Calliophis têm uma sensibilidade fantástica para trechos mais
calmos e construídos, frequentemente usados no meio das músicas para criar
alguns momentos de reflexão e imersão na névoa......Há muitos elementos
louváveis, como as performances incrivelmente talentosas, a composição criativa
e variada, bem como o som arrasador. A produção é mais ou menos perfeita e
muito dinâmica. As guitarras soam crocantes sem ofuscar as melodias mais
frágeis, a bateria tem um bom impacto e o baixo é alto o suficiente para ser
reconhecido. Uma mixagem tão polida ajuda a captar cada detalhe e a concentrar-se
nas diferentes camadas que fazem "Liquid Darkness" se destacar do
resto. Se você procura uma trilha sonora adequada para os dias de outono que se
aproximam, não hesite em conferir Calliophis. É provável que você encontre um
álbum no qual se sinta totalmente imerso.
Em We, the Dead, o nono opus do HellLight, o funeral
doom brasileiro encontra um novo abismo em que afundar. Lançado em 2025 na
Bélgica pelo selo Meuse Music Records e distribuído no Brasil pelos selos
Mutilation Records e Cold Art Industry, o disco é uma monumental elegia à
decadência da alma um monólito sonoro que ecoa com a lentidão de um cortejo
fúnebre através de cemitérios esquecidos pelo tempo.
São sete faixas que totalizam quase 80 minutos de um
sofrimento orquestrado com precisão cirúrgica. Guitarras densas como a terra de
um túmulo recém-aberto, teclados que ressoam como lamentos de fantasmas
antigos, e vocais guturais que mais parecem brotar de algum lugar entre o peito
e o abismo. A produção, assinada pela própria banda no Doom Inc. Studios,
mantém o som com um pé na catedral e outro na cripta, revelando camadas de dor
que não se mostram de imediatoelas se
insinuam, lentamente, como uma febre que não passa.
A presença de Heike Langhans em “As Daylight Fades” adiciona
uma névoa etérea ao lamento como se
a
própria morte ganhasse voz feminina para sussurrar sua chegada. A arte da capa,
concebida por Rodrigo Bueno, já antecipa o que está por vir: figuras
encapuzadas rodeando uma árvore morta, em um ritual que parece nunca ter fim um
ciclo sombrio que ecoa o próprio título do álbum: nós, os mortos.
Há algo de litúrgico em We, the Dead. Cada faixa é
uma oferenda, uma confissão de dor deixada no altar da existência. Não há
pressa. O tempo aqui se dissolve, se arrasta, como se as horas tivessem perdido
o rumo. É um álbum que não se ouve: nele se entra. E, uma vez dentro, a saída
se torna apenas um rumor distante. A beleza que habita essas composições não é
a que brilha é a que corrói. E quanto mais se ouve, mais o mundo exterior
parece perder sentido, cor, forma...
Porque talvez, no fundo, sejamos mesmo apenas ecos de um
passado morto, sombras caminhando entre escombros que insistimos em chamar de
vida. Talvez este álbum seja o espelho que se recusa a refletir a luz, e, ao
encará-lo, percebamos algo que sempre esteve ali, nos observando das frestas
mais escuras da consciência...
Um sussurro antigo que agora ganha corpo, forma e som nas
camadas imersivas de We, the Dead. Há um peso existencial em cada nota
arrastada, um aviso enterrado sob os riffs que reverberam como badalos de um
sino que nunca para de tocar. O HellLight não apenas compõe músicaeles erguem monumentos de agonia, catedrais
de silêncio onde o luto é o idioma sagrado.
As atmosferas criadas não são apenas desoladoras são reveladoras. Como se cada faixa
funcionasse
como uma porta entre realidades, abrindo lentamente o acesso a
zonas do espírito que deveriam permanecer intocadas. Os teclados, longínquos e
espectrais, evocam uma tristeza que não pertence apenas ao indivíduo, mas à
própria humanidade uma melancolia
ancestral, como se o mundo chorasse por si mesmo há milênios.
Em “Dying Once More”, o tempo parece estagnar. Não há
salvação, não há catarse apenas um eterno retorno ao mesmo ponto de dor. É como
viver o mesmo último suspiro repetidamente, preso em um ciclo de morte
perpétua. E então, quando a música ameaça oferecer uma tênue luz, ela
desaparece, como a chama de uma vela engolida pelo vento gelado de um túmulo
aberto.
A performance de Fabio de Paula, ao mesmo tempo grandiosa e
soturna, funciona como a voz do próprio vazio. Os vocais não gritam por
socorroeles declaram a aceitação do
fim, o reconhecimento de que a escuridão já venceu há muito tempo. Não há
rebeldia aqui. Apenas resignação e nisso reside o terror verdadeiro.
We, the Dead não é uma obra feita para agradar ou
entreter. É um testamento. Um relicário de verdades cruéis, sussurradas com a
lentidão de quem já ultrapassou a urgência do desespero. Um álbum para ser
sentido com o corpo todo, como uma febre noturna que te impede de dormir, mas
não te deixa acordar por completo.
E então, quando o álbum parece cessar quando o último acorde
se dissolve no éter, e o silêncio toma
novamente seu lugar não resta o alívio.
Apenas uma sensação incômoda de que algo foi despertado. Algo que sempre esteve
lá, adormecido nos cantos esquecidos da alma, agora observa em silêncio esperando
o momento certo para se erguer.
Porque We, the Dead não termina quando sua última
faixa se cala ele continua. Nos ruídos da noite, no rangido dos móveis, nos
sonhos que ganham tons acinzentados e nos pensamentos que não nos pertencem
mais. O álbum planta sementes em um solo fértil de dúvida e melancolia, e suas
raízes silenciosas crescem para dentro, entrelaçando-se com as memórias, as
perdas, os lutos não chorados.
É um trabalho que corrompe o conceito tradicional de
belezaele revela o belo na putrefação,
na lentidão do fim, na dignidade sombria de aceitar que tudo apodrece. Há ecos
do romantismo mais negro, da espiritualidade quebrada, de uma fé que morreu mas
deixou vestígios, vagando por ruínas onde só os mais sensíveis ousam pisar.
HellLight caminha entre essas ruínas com a serenidade de quem sabe que o mundo
dos vivos é apenas uma ilusão bem decorada.
Cada audição é um descenso mais profundo. Cada nova escuta
revela espectros que antes estavam ocultos sutis mudanças de tom, pequenas
melodias soterradas que se deixam ouvir apenas quando o espírito está
suficientemente esvaziado. Não há pressa aqui. Não há refrão. Não há sequer
promessa de retorno. Há apenas a passagem... e o que vem depois dela.
O mais aterrador em We, the Dead não é a sua
escuridão sonora. É o que ele revela em silêncio, nas entrelinhas do som: que
talvez estejamos todos apenas fingindo vida. Que nossas rotinas, nossos afetos,
nossas memórias sejam apenas vestígios de algo que já se foi. E que, ao escutar
este álbum, finalmente ouvimos não uma música, mas uma verdade incômoda aquela
que só os mortos conhecem.
E assim, quando o silêncio se instala novamente em sua casa,
e você tenta voltar ao mundo de antes, algo permanece. Um peso. Um eco. Um
olhar atrás dos olhos e você se pergunta, já tarde demais: e se nós
formos os mortos, e só agora começamos a perceber?
E então, quando já não há retorno quando o silêncio após a
última nota se torna mais ensurdecedor do que o som resta apenas encarar o
espelho. E se a música não for apenas arte, mas invocação? E se We, the Dead
for um portal, não um álbum? Ao escutá-lo, você não apenas visita a morte...
você a convida.
Faixas de We, the Dead:
Dying
Once More
As
Daylight Fades(com participação de Heike Langhans)
Como um vulto ao pé da cama, ele sabe que, mais cedo ou mais
tarde, todos virão até ele. Porque há álbuns que você escuta… e há álbuns que
escutam você. E talvez, neste exato momento, enquanto você lê estas
palavras e o silêncio te envolve, algoou alguémdo outro lado da música
esteja, enfim, acordando.
Bleak Transcendence e o abismo interior de Mortuanima
Bleak Transcendence, trio curitibano de doom metal atmosférico, emerge como uma entidade sonora que transcende os limites convencionais da música pesada. Formada em 2023 por Alexandre Antunes (vocais e guitarra), Michael Siegwarth (bateria) e Wagner Müller (baixo), a banda canaliza influências do funeral doom e do death/doom para criar composições que orbitam o silêncio, a contemplação e a dor essencial da existência. Seu álbum de estreia, Mortuanima, lançado pelo selo Eclipsys Lunarys Productions, não é apenas uma obra musical: é um ritual meditativo que convida à descida nas regiões mais sombrias do ser.
O título Mortuanima já carrega em si um paradoxo filosófico: a morte como força interior, como ânima silente que habita cada gesto, cada escolha. Trata-se de uma metáfora para o confronto com o vazio e a transcendência que este confronto pode provocar. Através de vocais guturais que alternam com limpos como se duas vozes, uma da carne e outra do espírito, dialogassem no mesmo corpo e instrumentais lentos, atmosféricos, dilacerantes, a banda constrói uma liturgia sonora onde a dor não é apenas sintoma, mas processo de revelação. As letras mergulham em estados limítrofes da consciência: perda, finitude, dissolução do eu, e
renascimento por meio da desintegração. Há aqui uma clara influência de filosofias existencialistas, especialmente na forma como a banda transforma o desespero em impulso de lucidez. A musicalidade em si, arrastada e imersiva, parece ecoar uma metafísica do tempo: cada nota é um passo em direção ao fim, mas também um convite à suspensão da pressa, ao acolhimento do instante enquanto ruína e semente.
Mesmo na opção por teclados virtuais em apresentações ao vivo diante da ausência de um tecladista fixo Bleak Transcendence preserva a atmosfera espectral de sua obra. Essa escolha revela um compromisso com a essência, não com a forma: o que importa é manter viva a densidade do ritual sonoro, mesmo que adaptado às contingências materiais. A fidelidade à própria estética mostra uma ética do som, onde o cuidado com o impacto espiritual da música supera os padrões performáticos usuais.
Mortuanima não é um álbum para ser escutado, mas para ser atravessado. Nele, o ouvinte é convidado a deixar-se despir de certezas, a contemplar suas próprias sombras, a escutar o que há de morto — e de eternamente vivo em si. A proposta artística da banda é profundamente filosófica: não há salvação sem confronto, não há transcendência sem travessia pelo abismo. Bleak Transcendence nos lembra que o fim não é silêncio absoluto, mas .uma forma extrema de escuta. No vácuo deixado pelo colapso das ilusões, surge uma nova possibilidade de ser — não mais centrada na identidade, na coesão do eu, mas na abertura à impermanência. Nesse sentido, Mortuanima pode ser lido como um tratado sonoro sobre a decomposição do sujeito moderno, uma desconstrução poética da vontade de sentido, substituída por uma estética da entrega e da suspensão.
Ao fundirem música e reflexão, Bleak Transcendence posiciona-se não como entretenimento, mas como instrumento de transformação ontológica. A banda nos empurra para fora da zona de conforto sensorial e conceitual, desafiando o ouvinte a encarar o que foi esquecido: a beleza melancólica da finitude, o fascínio do tempo que devora, a dignidade do sofrimento aceito como parte essencial do vir-a ser.Essa é uma arte que exige presença total. Não há espaço para distrações, nem para a superficialidade. Cada faixa funciona como um espelho trincado fragmentando a imagem do mundo para que vejamos, nos interstícios, algo mais verdadeiro do que a forma habitual das coisas. O eco dessa proposta filosófica ressoa com tradições trágicas, místicas e existenciais, aproximando Bleak Transcendence de uma linhagem artística que não busca respostas, mas formula perguntas cada vez mais profundas.
Com Mortuanima, o selo Eclipsys Lunarys Productions revela-se como um canal importante para essas vozes dissonantes que encontram no metal extremo uma forma de meditação sonora. A parceria entre banda e selo não é apenas logística; é um pacto estético que sustenta a integridade de uma obra que recusa concessões.
Bleak Transcendence nos oferece, portanto, uma experiência que não se encerra na escuta, mas que continua a reverberar como um lamento antigo gravado nas ossadas da alma nas horas em que o silêncio se impõe. Porque talvez a verdadeira transcendência não esteja em escapar da dor, mas em habitá-la plenamente, como quem aprende a respirar nas ruínas. E se há alguma esperança nesse disco, ela não vem da luz, mas do que aprendemos a ver quando a luz se apaga e quando a luz se apaga, tudo o que resta é o som abafado da terra cobrindo a memória o peso da ausência que nos molda em silêncio. Mortuanima não é só um lamento; é um epitáfio escrito antes da morte, um testamento de tudo aquilo que se perdeu antes mesmo de ser possuído. A cada compasso, a alma se arrasta como um espectro ciente de sua ruína, tropeçando sobre os escombros de um sentido que nunca se formou por completo.
Há um frio que não vem do clima, mas de dentro um frio que desmancha afetos, desbota lembranças, dissolve a carne em melancolia bruta. Neste espaço, esperança é um veneno disfarçado de flor, e a existência, um eco sem origem, vagando entre os corredores ocos da consciência.
A escuta se torna uma espécie de exílio: cada nota nos exila mais de nós mesmos, nos lança a um lugar onde tudo pulsa sem propósito, onde o tempo é uma lenta hemorragia do ser. Bleak Transcendence não grita para ser ouvido; sussurra como um cadáver que se recusa a apodrecer, insistindo em respirar, mesmo quando o ar já virou pó.
Mortuanima é o som da alma que falhou em ser eterna. E ao fim de tudo, só há isso: o coração ainda batendo por inércia, a mente trancada num quarto sem janelas, e a certeza de que o abismo não responde ele apenas observa, calado, enquanto... você continua caindo.
Em Profane Smoke Ritual, a banda paulistana Weedevil não apenas lança um álbum, mas ergue um altar sonoro onde o doom metal se transforma em ferramenta de invocação espiritual. Lançado em 2024 formato Digital pelo selo Smoder Brains Records, e em 2025 pelos selos Mutilation Records e LP Metal Press, este disco se move como uma serpente em meio à névoa: lento, hipnótico e profundamente ritualístico. É um mergulho nos abismos interiores, abrindo dissolução do ego sob o peso da fumaça e da distorção.
A jornada começa com “The Serpent’s Gaze”, faixa que abre o álbum como quem abre um grimório antigo. Os riffs rastejam como encantamentos sussurrados em uma língua esquecida, e a voz de Poison surge como um oráculo encantadora, poderosa e ameaçadora. Essa serpente, que olha e seduz, representa o despertar da consciência sombria que percorre todo o disco.Em “Chronic Abyss of Bane”, a banda expande seu ritual com texturas psicodélicas e atmosferas
fúnebres. A letra, uma ode à dissolução dos sentidos, apresenta cogumelos que se desdobram em labirintos mentais, onde a dor se mistura com êxtase e o delírio se torna revelação. Essa faixa é um portal não para fora, mas para dentro, onde o caos se confunde com iluminação.
“Profane Smoke Ritual”, a faixa-título, é o coração pulsante do álbum. Um hino à libertação por meio da cannabis não como recreação, mas como ferramenta de acesso ao invisível. A música pulsa em espirais, com batidas que simulam o ritmo cardíaco de uma cerimônia arcana. É um cântico de autoconhecimento e ruptura com os dogmas. A arte do disco, com imagens de Baphomet coberto por folhas de maconha e ladeado por bacantes em transe, ecoa a iconografia de rituais dionisíacos e a filosofia de Crowley, onde a vontade é lei e o êxtase, divindade.
Em “Veil of Enchanted Shadows”, a banda mergulha ainda mais fundo no ocultismo. A canção caminha entre véus e penumbras, sugerindo que a realidade é apenas uma camada tênue a ser rasgada. Cada riff é uma estaca cravada nas certezas do mundo material. Há aqui uma contemplação lúgubre da ilusão cotidiana um chamado para ver além.
“Necrotic Elegy” traz a morte como companheira serena. Não há medo nesta canção, apenas respeito pela transição. É uma elegia para aquilo que se desfaz, para aquilo que retorna ao pó e, ao retornar, alimenta o ciclo eterno da existência. Um lamento pesado, arrastado, onde a guitarra chora e a voz sussurra segredos dos túmulos.
O fechamento com “Serenade of Baphomet” é um tributo à figura ambígua do deus oculto. Baphomet, o símbolo da união dos opostos, da sabedoria e do instinto, é aqui louvado em uma serenata sombria. A música alterna entre doçura psicodélica e brutalidade controlada, como se a própria luz e trevas disputassem espaço no altar da consciência.
Formação da Weedevil em Profane Smoke Ritual:
Poison – Vocais
Jimmy Olden – Guitarra
Henrique Bittencourt – Guitarra
Claudio HC Funari – Baixo
Flavio Cavichioli – Bateria
Profane Smoke Ritual é um tratado esotérico em forma de som. Uma serpente feita de fumaça que se enrosca nos ouvidos e aperta lentamente o espírito até que reste apenas o vazio fértil e silencioso onde tudo pode novamente nascer. Um álbum para ser ouvido de olhos fechados, com o coração aberto e a alma exposta às trevas.
A Dead Poem, e uma banda de Doom/Black/Gothic Metal...as sete faixas do Full lenght CD promete capturar a essência do Doom Metal clássico, revisitando o que há de mais sombrio e introspectivo nos anos 90, com referências claras a álbuns como, Katatonia, Paradise Lost, Rotting Christ. O segundo álbum foi lançado em 2024 "Abstract Existence" sem sombra de dúvida, que a música de A Dead Poem segue muito a linha do Katatonia da época de "Dance of December Souls" e "Brave Murder Day". Da mesma forma, há uma forte semelhança com bandas que foram igualmente inspiradas por esses álbuns "Abstract Existence" é complementado por aquele som mais melódico e gótico, com o toque nos vocais adicionando aquela leve vibração de Black Metal ao som predominantemente.....Black, Death e Doom transcendiam um ao outro de forma única. Uma época em que Tiamat, Rotting Christ, Katatonia e Paradise Lost encontraram um som Doom Metal baseado em melodia cativante..."Abstract Existence" é um ótimo álbum. Não apenas porque emula fortemente esse som, mas também porque simplesmente não há muitos álbuns lançados nesse estilo. Além disso, a qualidade dos riffs certamente se equipara aos seus exemplos. Três músicas em particular se destacam. "In Forgotten Dimensions" é a mistura perfeita de todas as influências, e o solo no final é simplesmente esplêndido. Em "Obedience", a vibe de Paradise Lost é mais evidente, e eu realmente gosto dos solos principais aqui também. E a faixa final, "Silent Tears Fall", é repleta de riffs excelentes e melodias memoráveis, talvez culminando na melhor faixa do álbum até hoje. "Abstract Existence" é um álbum perfeito.... A Dead Poem, que oferece uma homenagem muito agradável a uma época em que o Doom Metal melódico com Black Metal, Especialmente considerando que este é o álbum do A Dead Poem, parece que eles podem muito bem preencher uma lacuna deixada por aqueles que os antecederam....