Walking Over Strings nasce na Venezuela como um gesto solitário de resistência estética e sensível. Não é uma banda no sentido tradicional, mas um território interno onde apenas um nome caminha entre fios de luz e ruína. Efraín Alejandro Méndezé o mentor, o único membro, o corpo e a mente por trás de tudo. Ele não reúne músicos, ele reúne estados de espírito. Cada composição surge como um fragmento de cidade vista à noite, cada acorde carrega o peso do concreto molhado, da solidão urbana e do pensamento que não dorme.
Desde o início, o projeto se afasta do black metal ortodoxo. O que interessa a Efraín não é a fúria pela fúria, mas a atmosfera que fica depois do impacto. O silêncio que ecoa quando a distorção se recolhe. Influenciado por trilhas sonoras, post rock, música experimental e pela estética do pós black metal, Walking Over Strings constrói músicas que se comportam como cenas de um filme que nunca foi filmado. Tudo é feito por ele. Instrumentos, gravação, arranjos, produção. Um homem contra o excesso do mundo, criando camadas para suportar a própria lucidez.
Os primeiros lançamentos aparecem como um fluxo quase incontrolável de criação. Em 2015 surgem obras que revelam um artista inquieto, dividido entre o impulso narrativo e a contemplação. Os álbuns não funcionam como coleções de faixas, mas como diários emocionais. Cada disco é uma tentativa de traduzir sentimentos que não cabem em palavras comuns. A música se torna linguagem alternativa para falar de memória, melancolia, observação e distância.
Com o passar dos anos, a sonoridade se torna mais refinada, mais cinematográfica e mais introspectiva. As guitarras deixam de ser apenas ferramentas de peso e passam a desenhar paisagens. Os ritmos respiram, desaceleram, aceleram de forma orgânica, como pensamentos que entram em espiral. Walking Over Strings não busca resposta, busca permanência no instante. É música feita para atravessar noites longas, ruas vazias e estados mentais que não pedem companhia.
Efraín Alejandro Méndez segue como um arquiteto de emoções discretas, alguém que prefere construir pontes invisíveis entre som e sentimento, sem pressa, sem concessões. O projeto continua evoluindo como uma entidade viva, silenciosa e intensa, ainda caminhando sobre cordas frágeis, ainda olhando para a cidade, ainda escrevendo capítulos que não se fecham porque a história ainda respira, ainda pulsa, ainda não terminou e continua depois.
Cada obra posterior aprofunda essa sensação de deslocamento e permanência ao mesmo tempo. Walking Over Strings passa a soar menos como um projeto musical e mais como um estado contínuo de consciência. As composições se estendem, respiram em camadas lentas, permitem que o ouvinte se perca sem perceber o tempo. Há um cuidado quase obsessivo com o espaço entre os sons, como se o vazio também fosse um instrumento. Nada é gratuito. Cada nota surge para sustentar uma emoção que não encontra abrigo fora da música.
A identidade visual e conceitual acompanha essa postura introspectiva. Títulos sugerem janelas, luzes artificiais, noites frias e paisagens internas. Não existe a necessidade de explicar tudo. O projeto confia na sensibilidade de quem escuta. A ausência de letras tradicionais em muitos momentos reforça essa linguagem aberta, onde o sentimento antecede qualquer narrativa concreta. Walking Over Strings não conduz, apenas abre caminhos.
Mesmo sendo um trabalho solitário, o alcance emocional não é pequeno. Há uma conexão silenciosa com quem vive a angústia da repetição urbana, com quem observa o mundo de fora, com quem carrega a sensação de estar sempre um passo distante de tudo. A música funciona como abrigo temporário, não para curar, mas para compreender. Ela não promete redenção. Apenas acompanha.
Efraín mantém o projeto distante de movimentos de mercado ou exposições excessivas. Não existe urgência em se afirmar, apenas em continuar criando. Cada lançamento surge como necessidade íntima, não como produto. Walking Over Strings permanece fiel à ideia de caminhar sem pressa, aceitando o risco da queda, aceitando o peso da solidão como matéria criativa.
O futuro do projeto não se anuncia com clareza e talvez nem precise. Enquanto houver inquietação, memória e silêncio suficiente para ser moldado em som, Walking Over Strings seguirá existindo, atravessando noites, acumulando camadas de sentido, observando o mundo por dentro, esperando o próximo impulso surgir do escuro, do pensamento suspenso, do instante em que tudo parece parar e algo novo começa a se formar lentamente, ainda sem nome, ainda em construção.
Nesse ponto da trajetória, Walking Over Strings já não pertence apenas ao seu criador. O projeto passa a existir como uma entidade autônoma, um reflexo distorcido que devolve ao ouvinte aquilo que ele tenta esconder de si mesmo. As músicas não pedem atenção imediata, exigem entrega. Elas se revelam aos poucos, como a cidade quando observada da janela durante a madrugada, quando o ruído diminui e a mente começa a falar mais alto.
A estrutura das composições se afasta de qualquer lógica previsível. Não há fórmulas, não há refrões que confortam, não há caminhos seguros. O som cresce e se dissolve com naturalidade, guiado por sensações e não por regras. O peso surge quando precisa surgir e desaparece quando já cumpriu sua função. Tudo é fluido, tudo é instável, como o próprio estado emocional que dá origem a cada faixa.
Walking Over Strings também carrega um sentimento constante de movimento interior. Não é uma música estática, mesmo nos momentos mais lentos. Existe sempre algo se deslocando por baixo da superfície, uma tensão silenciosa, uma expectativa contida. O projeto fala de emoções sem nome, de pensamentos que circulam sem destino, de noites que parecem intermináveis. Não há desespero explícito, apenas uma melancolia lúcida, consciente de si.
Efraín Alejandro Méndez segue criando a partir desse lugar íntimo, onde o som funciona como tradução do que não pode ser dito. Ele não se repete, porque cada fase emocional gera uma nova forma de expressão. O projeto cresce por dentro, acumulando experiências, observações e silêncios. Walking Over Strings permanece como um registro contínuo de sensações, um arquivo emocional aberto, que se transforma junto com o tempo, com a vida, com o desgaste natural de quem sente demais e ainda assim continua caminhando, mesmo quando tudo parece frágil, mesmo quando o chão oscila, mesmo quando o futuro ainda não se deixa ver, porque a caminhada não termina aqui e o próximo passo ainda está sendo pensado, ainda está sendo sentido.
Os álbuns funcionam como marcos dessa caminhada interior. Cada um surge como um capítulo distinto, não fechado em si, mas conectado por uma mesma sensação de observação e recolhimento. Me, the Night and the City aparece como o primeiro contato com esse universo, um registro ainda cru, mas carregado de intenção. As músicas soam como deslocamentos noturnos, ruas vazias, luzes refletidas no asfalto molhado. Existe ali um diálogo constante entre peso e contemplação, como se a cidade fosse um espelho da mente em estado de vigília permanente.
No mesmo período, One Window, One Story… aprofunda essa ideia de narrativa fragmentada. Cada faixa parece observar o mundo a partir de um ponto fixo, como alguém que assiste a própria vida de fora. O som se torna mais delicado em certos momentos, mais introspectivo, menos interessado em impacto e mais preocupado em criar atmosfera. É um álbum que respira solidão, mas uma solidão que observa, que registra, que pensa.
Com Simple Kaleidoscope, o projeto entra em uma fase de maior maturidade sensorial. As camadas se multiplicam, os arranjos se tornam mais sutis e ao mesmo tempo mais densos. As emoções se movem em círculos, mudam de forma, se reorganizam. O título não engana. A simplicidade aparente esconde uma complexidade emocional constante, como sentimentos que se repetem, mas nunca da mesma maneira.
Em I, Emotion, a música se volta ainda mais para dentro. O álbum soa como um inventário de estados internos, sem máscaras. As composições carregam uma carga emocional mais direta, menos filtrada. Há fragilidade, há tensão, há um esforço claro de transformar sensação em som sem suavizar as bordas. É um trabalho que não busca agradar, apenas existir como expressão honesta de um momento específico.
Neon Borealis surge como um fechamento provisório desse ciclo. O som ganha contornos mais expansivos, quase contemplativos, como se a escuridão agora refletisse luz artificial. As músicas se estendem, constroem paisagens amplas, frias e distantes. Existe uma sensação de aceitação silenciosa, de continuidade, de olhar para frente sem abandonar o peso acumulado. Não é um fim, mas uma pausa consciente, um ponto de observação antes do próximo movimento.
Cada álbum de Walking Over Strings não responde ao anterior, apenas o prolonga. São registros de tempo, memória e sensação, organizados sem pressa, sem a necessidade de conclusão. A discografia permanece aberta, como a própria experiência humana, sempre incompleta, sempre em processo, sempre aguardando o próximo som nascer do silêncio que ainda envolve tudo, enquanto a história segue, ainda em escrita, ainda sem ponto final.
E é justamente por nascer na Venezuela que Walking Over Strings carrega um peso que vai além da música. Criar arte extrema em um país que não ocupa o mapa tradicional do metal é um ato de insistência emocional, quase um gesto político silencioso. Não há cena consolidada, não há estruturas sólidas, não há holofotes. Há escassez, instabilidade, ruído externo constante. Ainda assim, Efraín Alejandro Méndez escolhe o caminho mais difícil. O da introspecção profunda, o da criação solitária, o da fidelidade absoluta ao que sente.
Walking Over Strings não grita por atenção. Ele existe apesar de tudo. Enquanto o mundo associa o metal a centros óbvios, esse projeto surge do sul, da margem, do lugar onde criar é sobreviver. A música carrega essa tensão invisível, essa sensação de caminhar sobre algo frágil, sabendo que qualquer passo pode falhar. Não há pose, não há arrogância, apenas verdade emocional.
A Venezuela aparece não como bandeira, mas como atmosfera. Está no sentimento de isolamento, na melancolia persistente, na lucidez que nasce da dificuldade. Cada álbum soa como um registro de resistência íntima, como alguém que se recusa a silenciar mesmo quando o entorno insiste em esmagar qualquer tentativa de expressão sensível. Walking Over Strings prova que o metal não pertence a territórios, mas a estados de espírito.
No fim, o projeto permanece como uma voz baixa, porém firme, ecoando de um lugar improvável. Um testemunho de que a dor, a contemplação e a beleza também florescem onde ninguém costuma olhar. Caminhar sobre cordas, vindo da Venezuela, é aceitar o risco constante e ainda assim seguir adiante. Sem promessas, sem garantias, apenas com som, emoção e a coragem silenciosa de continuar existindo quando tudo ao redor parece ruir.
No coração cinzento de Bristol, Inglaterra, em 2011, nasceu
uma banda que transformaria dor em catarse, melancolia em energia visceral e
esperança em melodia. Svalbard surgiu como um grito de autenticidade em meio ao
caos do pós-hardcore, do blackened hardcore e do post-metal, carregando no nome
a referência ao arquipélago gelado da obra His Dark Materials, de Philip
Pullman, símbolo de isolamento e beleza selvagem exatamente como a música que
criariam.
À frente dessa jornada está Serena Cherry,
guitarrista e vocalista, cuja voz alterna entre a fúria cortante e a
fragilidade emocional, conduzindo as letras que refletem dilemas existenciais,
dor pessoal e crítica social. Ao seu lado, Liam Phelan, também
guitarrista e vocalista, complementa o peso emocional com riffs densos e linhas
melódicas que cortam como lâminas no frio ártico. Mark Lilley, na
bateria, é o coração pulsante que dita o ritmo entre explosões sonoras e
silêncios carregados de tensão. E desde 2020, Matt Francis se uniu ao
grupo, trazendo linhas de baixo que ecoam como trovões em um céu carregado de
tempestade.
Uma curiosidade que revela a essência da banda é que Serena
Cherry, além de musicista, é apaixonada por videogames e cultura geek, e essa
influência aparece em atmosferas de algumas composições lembrando mundos
distantes e paisagens emocionais cinematográficas.
A sonoridade de Svalbard é como uma tormenta que se aproxima
lentamente, trazendo consigo uma mistura de angústia, força e uma beleza quase
trágica. Cada acorde parece conter fragmentos de confissão, como se as músicas
fossem cartas escritas no meio da noite, entre o peso do mundo e a vontade de
seguir respirando.
Nos palcos, a banda não apenas toca, mas vive suas canções.
Serena Cherry fecha os olhos e deixa que as palavras cortem o ar, enquanto Liam
Phelan guia os riffs como lâminas incandescentes, cruzando entre o caos e a
melodia. Mark Lilley, com suas batidas precisas e viscerais, sustenta cada
mudança de atmosfera, enquanto Matt Francis adiciona uma base que pulsa como um
coração inquieto prestes a explodir.
Mais do que notas, Svalbard constrói paisagens sonoras que
falam de vulnerabilidade, resistência e do encontro entre dor e esperança. Não
há espaço para superficialidade; tudo é intenso, sincero, sem filtros.
Os temas que percorrem as canções de Svalbard não são apenas
melodias pesadas acompanhadas de gritos intensos; são manifestos de dor humana,
lamentos sociais e reflexões íntimas sobre o peso da existência. As letras
falam de desigualdade, da luta interna contra os fantasmas da mente e da
urgência de encontrar significado em meio ao caos que nos cerca.
Cada verso parece carregado de um desespero que não pede
piedade, mas compreensão. Serena escreve como quem sangra sobre o papel, e
quando sua voz ecoa, é impossível não sentir que ali existe mais do que música existe
verdade. Liam, com sua guitarra, responde a essas emoções como se cada nota
fosse uma ferida aberta que se recusa a cicatrizar.
A atmosfera que a banda cria é quase cinematográfica,
transportando o ouvinte para lugares de sombra e luz, frio e calor, desespero e
libertação. Há algo de libertador na forma como o som atinge o coração, como se
a dor se transformasse em algo belo, algo que conecta pessoas que talvez jamais
se encontrariam de outra forma.
Nos shows, essa conexão se torna visceral. As luzes baixas,
o público em transe, as guitarras ecoando como trovões cortando a noite tudo
cria uma experiência que transcende o conceito de apresentação musical. É mais
como uma catarse coletiva, onde cada pessoa deixa algo de si naquele momento,
levando consigo uma parte da intensidade que presenciou.
Svalbard continua escrevendo sua história, expandindo sua
presença e criando um legado que não se limita ao som, mas à experiência
emocional que oferece a quem ousa escutar.
A trajetória de Svalbard se entrelaça com sua discografia,
cada lançamento funcionando como um capítulo visceral de crescimento e
amadurecimento musical.
O primeiro marco foi o EP “Svalbard” (2012), seguido
por “Gone Tomorrow” e “Flightless Birds” (2013), trabalhos que
apresentaram uma sonoridade crua, quase urgente, como se a banda estivesse
testando os limites de seu próprio caos sonoro. Esses primeiros registros
abriram espaço para uma base de fãs que reconhecia, desde cedo, que havia algo
de genuíno e brutalmente honesto em sua música.
Com o tempo, a fúria ganhou contornos mais atmosféricos e
emocionais, culminando no álbum de estreia “One Day All This Will End”
(2015) – um trabalho que não apenas consolidou a banda na cena underground
britânica, mas que também expôs uma vulnerabilidade melódica até então apenas
sugerida nos EPs.
Três anos depois, em “It’s Hard to Have Hope” (2018),
o grupo mostrou-se mais maduro e direto, entregando letras afiadas que
criticavam injustiças sociais, desigualdade de gênero e a mercantilização do
sofrimento humano. Foi um disco que uniu crítica social e introspecção
emocional, demonstrando coragem para falar de feridas abertas tanto no
indivíduo quanto na sociedade.
Em 2020, com “When I Die, Will I Get Better?”,
Svalbard mergulhou ainda mais fundo na fusão de post-metal, hardcore e
shoegaze, entregando um álbum melancólico, pesado e, ao mesmo tempo,
poeticamente belo. Foi nesse período que o baixista Matt Francis entrou
oficialmente para a banda, trazendo novas texturas e profundidade sonora.
O ápice da produção veio em 2023, com “The Weight
of the Mask”, álbum lançado sob o selo da renomada Nuclear Blast Records,
uma das maiores gravadoras do mundo no segmento de metal. Essa assinatura
marcou não apenas o reconhecimento do talento da banda, mas também o alcance de
novos patamares de visibilidade, levando seu som a públicos que jamais haviam
sido tocados por sua mistura de brutalidade e lirismo.
Cada disco carrega uma identidade própria, mas todos
compartilham a mesma essência: intensidade emocional, peso catártico e uma
busca incessante por transformar dor em arte que ecoa como um grito de
resistência contra o vazio e a indiferença do mundo. A crítica especializada
logo percebeu que Svalbard não era apenas mais uma banda dentro da cena pesada;
havia algo de profundamente humano na forma como suas composições transcendiam
os limites do gênero, equilibrando a agressividade do hardcore com passagens
melancólicas que beiram o post-rock.
Com “One Day All This Will End”, muitos jornalistas
destacaram como o álbum parecia narrar o fim inevitável de algo precioso, mas
com a esperança de que, na destruição, também se encontra renascimento. Já em “It’s
Hard to Have Hope”, o choque veio pelo lirismo cru das letras, que
denunciavam injustiças sem perder o senso poético. Foi um disco que dividiu
opiniões apenas pela coragem de falar de temas que muitos preferem ignorar.
Quando lançaram “When I Die, Will I Get Better?”,
críticas ao redor do mundo elogiaram a ousadia em fundir peso e melancolia de
forma quase hipnótica, com passagens instrumentais que pareciam convidar o
ouvinte a caminhar por paisagens de introspecção. E, finalmente, “The Weight
of the Mask” trouxe maturidade e uma produção impecável graças ao suporte
da Nuclear Blast, consolidando Svalbard como um dos nomes mais respeitados do
metal moderno.
Mas, além da crítica, foi o público que abraçou a banda de
forma mais intensa. Cada show tornou-se um encontro emocional, cada álbum, uma
espécie de diário coletivo onde milhares de pessoas encontram suas próprias
histórias nas letras, suas próprias batalhas nos riffs, seus próprios silêncios
nas pausas entre uma nota e outra camada de significado surge para aqueles que
se permitem mergulhar além da superfície sonora. As letras deixam de ser apenas
palavras gritadas no caos e tornam-se confissões, manifestos de resistência e
reflexões íntimas sobre a fragilidade humana. Cada faixa é quase uma janela
para um mundo particular, onde dor, esperança e catarse coexistem de forma
brutalmente bela.
Nos bastidores, o processo criativo da banda é tão intenso
quanto o resultado final. Serena Cherry costuma falar sobre como as ideias para
as letras muitas vezes nascem de momentos de profunda solidão, enquanto Liam
Phelan transforma essas emoções em melodias que oscilam entre a fúria e a
contemplação. Mark Lilley, com sua precisão na bateria, cria a espinha dorsal
que mantém tudo coeso, enquanto Matt Francis acrescenta linhas de baixo que
vibram como pulsações de algo vivo, orgânico, quase humano.
Essa intensidade se traduz no palco, onde cada apresentação
é uma experiência que mistura arte, desabafo e comunhão. O público não apenas
assiste; sente. Cada acorde reverbera como se fosse parte de uma memória
compartilhada, como se, por alguns minutos, ninguém estivesse sozinho diante do
peso do mundo.
O Crepúsculo de Svalbard: Uma despedida que Ecoa
Há momentos na vida em que a intensidade de uma existência
não pode ser medida apenas pelo tempo que se passou, mas pelo impacto que
deixou em cada alma que tocou. O fim da banda Svalbard é exatamente assim: não
é apenas o encerramento de um ciclo musical, mas a conclusão de um capítulo
emocional profundo, tanto para os músicos quanto para todos que caminharam ao
lado deles através das notas, das letras e do caos silencioso que cada canção
carregava.
Anunciar o término de algo que se construiu com tanta
sinceridade é um ato de coragem. Svalbard sempre se manteve fiel à
autenticidade de sua arte; nunca se curvou a convenções ou fórmulas fáceis, e
isso exigiu deles uma entrega total. Cada riff, cada batida, cada grito e cada
suspiro era uma extensão do que sentiam, de suas frustrações, esperanças e
reflexões. O fim da banda não apaga tudo isso; pelo contrário, dá forma
definitiva a um legado que continuará vivo na memória de quem ouviu, assistiu,
chorou ou se encontrou em suas músicas.
Para aqueles que os seguiram desde os primeiros EPs, a
notícia é agridoce. Existe a tristeza inevitável de saber que os palcos já não
ecoarão suas melodias, que novas músicas não nascerão do mesmo caldeirão
emocional compartilhado. Mas também existe um certo alívio, um respeito
profundo pela decisão da banda de encerrar em seus próprios termos, mantendo a
integridade artística e evitando o desgaste criativo que tantas outras
histórias já testemunharam. É um adeus consciente, um gesto de amor e de cuidado
com o que sempre foi mais importante: a arte.
O que torna este fim ainda mais humano é a clareza com que
os membros demonstraram que não há rancor nem animosidade. Serena Cherry, Liam
Phelan, Mark Lilley e Matt Francis não se despedem por conflitos internos, mas
por um entendimento coletivo de que cada jornada tem seu ciclo. A banda se
despede como quem encerra um diário com páginas ainda em branco, consciente de
que cada capítulo anterior permanecerá vivo, inalterável, como uma obra
completa.
E, mesmo em meio à melancolia, o fim também é fertilidade. O
encerramento de Svalbard abre espaço para novas ideias, novas sonoridades,
novos projetos. Serena Cherry continua explorando horizontes paralelos com seu
projeto Noctule, mergulhando no black metal e trazendo camadas ainda mais
densas de emoção e imaginação. Cada membro da banda carrega consigo a
experiência acumulada, pronta para se transformar em novos caminhos criativos,
individuais e coletivos, que ainda estão por vir.
O fim de Svalbard, portanto, não é uma simples ruptura; é a
culminação de uma viagem intensa e memorável, um ponto de reflexão sobre o peso
da arte, sobre como a música pode ser simultaneamente brutal e bela, desoladora
e curativa. É um lembrete de que toda experiência, por mais efêmera que pareça,
deixa marcas indeléveis, e que a memória do que foi criado pode ser tão
poderosa quanto o ato de criar em si.
E assim, enquanto os palcos se preparam para a última turnê,
enquanto cada nota final ressoa nos corações de fãs ao redor do mundo, o legado
de Svalbard permanece: uma força silenciosa e arrebatadora, um eco de dor
transformada em beleza, uma lembrança de que mesmo o adeus pode ser, em si, um
ato de amor profundo.
E então chega o momento que todos aguardavam e temiam: a
última turnê de Svalbard. Cada cidade visitada não é apenas um ponto no mapa,
mas um ritual de despedida. Glasgow, Manchester, Newcastle, Bristol e Londres
se transformam em templos onde a música se eleva além do som, tornando-se
memória viva, quase tangível. Os fãs chegam cedo, alguns com lágrimas nos
olhos, outros apenas em silêncio absoluto, conscientes de que estão prestes a
testemunhar o encerramento de uma era.
O palco se ilumina e a energia acumulada ao longo de anos
explode. Cada acorde parece ecoar a história da banda, cada batida de Mark
Lilley como o coração pulsante de todos presentes, cada riff de Liam e Serena
carregado de emoção e força. Matt Francis sustenta a profundidade da música,
transformando o baixo em ponte entre a visceralidade do hardcore e a melancolia
do post-metal. Não é apenas uma apresentação; é um adeus que se vive, sente-se
e se compartilha, como se a música fosse capaz de congelar o tempo e encapsular
todas as emoções que atravessaram a trajetória da banda.
E no meio dessa intensidade surge o single final,
lançado como um epílogo musical, carregado de simbolismo e poesia. Não é apenas
uma faixa; é a síntese de tudo que Svalbard representa: dor transformada em
beleza, fragilidade que se torna força, despedida que também é esperança. Cada
nota parece dialogar com quem a escuta, lembrando que mesmo quando algo
termina, permanece uma parte viva dentro de cada um que se permitiu sentir.
Os momentos finais da turnê são quase sagrados. As músicas
antigas ganham novas cores, as letras ecoam com mais força, e o público
participa de um rito coletivo de memória e catarse. Entre aplausos e silêncios
reverentes, risos e lágrimas, percebe-se que Svalbard construiu mais do que uma
discografia; criou uma experiência emocional que transcenderá o tempo e se
manterá viva naqueles que se conectaram com sua arte.
E, finalmente, quando as luzes se apagam e o último acorde
se dissipa no ar, fica aquele silêncio que pesa e acalenta ao mesmo tempo. Há
uma tristeza inevitável — o vazio deixado pelos palcos que não se iluminarão
mais, pelos riffs que não ecoarão novamente, pelas palavras que não serão mais
cantadas sob a mesma intensidade visceral. É o fim de um ciclo que marcou
profundamente todos que cruzaram o caminho de Svalbard.
Mas, junto à melancolia, existe uma alegria silenciosa e
profunda. Alegria por ter testemunhado a existência de uma banda tão
verdadeira, tão intensa, tão grandiosa em sua sinceridade artística. Alegria
por cada momento em que a música tocou a alma, por cada verso que se tornou
parte da própria história de alguém, por cada conexão emocional construída
entre palco e público, entre os membros da banda e aqueles que os acompanharam.
O legado de Svalbard não se mede em datas ou em números de
álbuns, mas na forma como transformou experiências individuais em algo
coletivo, na capacidade de fazer sentir profundamente, de unir dor e beleza,
raiva e ternura, caos e esperança. A banda se vai, mas a memória de sua arte
permanece imortal, pulsando nos corações daqueles que a ouviram e aprenderam a
se reconhecer nela.
E assim, mesmo com a tristeza do adeus, resta a certeza de
que Svalbard existiu e que essa existência, tão intensa e verdadeira,
continuará a iluminar a vida de todos que se permitiram sentir seu impacto. É
um fim que dói, mas que também celebra a grandiosidade de algo que foi, e
sempre será, inesquecível.
Svalbard não foi apenas uma banda; foi um refúgio, um farol
na escuridão, um espaço onde a dor podia ser compartilhada e transformada em
beleza. A lembrança de sua existência inspira coragem para sentir, para
enfrentar, para resistir, e para encontrar poesia mesmo nos momentos mais
sombrios.
E assim, mesmo com o peso da despedida, permanece a alegria
serena de saber que algo tão grandioso existiu, que alguém teve a chance de
viver cada instante dessa arte visceral e verdadeira. Svalbard pode ter chegado
ao fim, mas o que criou continuará a ecoar, eterno, nos corações e nas memórias
de todos que se permitiram sentir sua força e sua verdade.
Harifa é um projeto solo de black metal atmosférico do Reino Unido, idealizado e conduzido por Faye Davis, uma musicista independente oriunda de Devon, Inglaterra. Com o lançamento do EP Withering Woods em abril de 2025, Harifa surgiu como uma nova força dentro da cena underground, apresentando uma proposta sonora que mistura crueza, introspecção e uma sensibilidade artística rara.
Faye é responsável por todos os aspectos do projeto composição, gravação, produção, execução de todos os instrumentos e vocais. Essa autonomia criativa confere ao som de Harifa uma coerência profunda e uma estética marcada pelo controle absoluto da artista sobre sua visão. O resultado é um trabalho de black metal atmosférico que se recusa a seguir fórmulas, preferindo construir atmosferas lentas, melancólicas e imersivas.
O EP Withering Woods carrega em si uma forte identidade visual e sonora. A produção deliberadamente lo-fi remete ao espírito das gravações dos anos 90, mas sem parecer datada. Pelo contrário há um frescor sombrio no modo como as camadas sonoras se entrelaçam, criando paisagens que evocam isolamento, vastidão e uma espiritualidade naturalista. As guitarras são ora cortantes, ora etéreas, os vocais surgem como lamentos à distância, quase espectrais, e os ritmos oscilam entre o hipnótico e o brutal.
A presença de Faye Davis nas redes sociais é mínima, o que reforça o mistério em torno da figura por trás de Harifa. Ainda assim, em breves aparições e interações, ela deixa entrever um comprometimento quase ritualístico com sua arte algo que vai além da música, tocando também o campo do existencial e do simbólico. Há em sua postura uma recusa consciente do espetáculo e da busca por visibilidade, como se o projeto existisse para si mesmo, como um espelho invertido de mundos internos que a maioria das pessoas prefere não visitar.
A faixa bônus “The Calling”, presente na versão física limitada do EP, amplia ainda mais o universo de Harifa, trazendo uma atmosfera mais expansiva e um senso de encerramento que, paradoxalmente, convida ao recomeço. Essa dualidade entre fim e início, entre presença e ausência, é recorrente na obra de Faye, e parece ser um dos eixos conceituais de sua criação.
Liricamente, Harifa explora temas como o esgotamento espiritual, a decadência natural, a comunhão com o silêncio e o ciclo inevitável de morte e renascimento. Faye escreve de forma simbólica, utilizando imagens naturais florestas, névoas, raízes como metáforas de estados emocionais e psíquicos. Suas letras não são panfletárias nem explícitas; elas evocam em vez de afirmar, sugerem em vez de declarar.
O que chama atenção, no entanto, não é apenas a profundidade dos temas abordados, mas a maneira como eles são apresentados com honestidade e sem concessões. Harifa não busca agradar ou pertencer. É um projeto que se mantém íntegro em sua proposta, mesmo que isso signifique ficar à margem. Essa autenticidade, tão rara em um mundo saturado de estratégias, confere ao trabalho de Faye um brilho sombrio — como um farol solitário aceso no meio da névoa.
Ainda é cedo para prever o rumo que Harifa tomará, mas Withering Woods estabelece uma base sólida e cheia de potencial. O EP é ao mesmo tempo uma introdução e uma declaração, uma abertura para um caminho que pode se expandir para territórios ainda mais densos e complexos. A expectativa natural é por novos lançamentos e, quem sabe, futuras apresentações ao vivo, mas também permanece a dúvida se Faye optará por manter a reclusão como parte de sua estética. Há algo profundamente coerente nisso a ideia de que algumas músicas não foram feitas para os palcos, mas para ecoar em cavernas internas que só se revelam quando estamos sozinhos, em silêncio, abertos ao que o som tem a dizer quando estamos dispostos a escutar o que existe nas margens do audível, naquilo que vibra entre o que é dito e o que é sentido. É nesse espaço rarefeito que Faye Davis parece habitar artisticamente e seu segundo lançamento, When the Leaves Fall, I'll Be Near, só aprofunda essa sensação de comunhão com o invisível.
Lançado meses após Withering Woods, o álbum When the Leaves Fall, I'll Be Near marca uma evolução notável na proposta estética de Harifa. Ainda fiel à sua abordagem lo-fi, Faye conduz o ouvinte por paisagens ainda mais introspectivas, frias e devastadoramente belas. O título por si só já sugere uma presença fantasmática, uma promessa de retorno entre as folhas secas do outono estação que, no imaginário poético da artista, representa transformação, perda e silêncio fértil.
Musicalmente, o álbum mantém as raízes atmosféricas do projeto, mas explora novas texturas e nuances emocionais. Há um peso emocional mais diluído, não pela ausência de intensidade, mas por uma sutileza ainda maior na forma de transmiti-la. As guitarras parecem se desmanchar no ar, os vocais surgem como sussurros distantes, e a percussão é usada com parcimônia, criando espaço para que o tempo se alongue entre as notas.
Faye Davis demonstra aqui uma sensibilidade ainda mais refinada, quase cinematográfica. Cada faixa parece parte de uma única narrativa melancólica, como capítulos de um diário íntimo escrito sob névoa. A instrumentação, embora minimalista, é rica em camadas emocionais. Violões acústicos aparecem discretamente em algumas passagens, adicionando um toque pastoral ao clima geral de desolação.
As letras continuam envoltas em simbolismo natural agora com uma presença ainda mais marcante da vegetação, da terra úmida, das sombras projetadas pela luz oblíqua de fins de tarde. Faye não escreve para explicar, mas para abrir brechas. A escuta de suas composições não é passiva; exige entrega, exige tempo. É música feita para quem caminha sozinho, para quem encontra consolo no som das folhas caindo, para quem vê beleza no fim das estações.
Com When the Leaves Fall, I'll Be Near, Harifa confirma que não se trata de uma promessa passageira ou de um experimento isolado. Faye Davis constrói aqui um universo coeso, com linguagem própria, onde cada ruído, cada silêncio e cada distorção serve a um propósito maior. O álbum não oferece catarse nem redenção fácil ele propõe a permanência no limiar, o confronto com o vazio, a contemplação do que se desfaz.
Há faixas que funcionam como pontos de ancoragem emocional, como “Ashen Fields” e “Among the Hollow Pines”, nas quais a melodia se torna um fio tênue que guia o ouvinte por trilhas encobertas de saudade. Outras, como “Stillness in Amber Light”, dissolvem qualquer forma em ambiente, criando um tipo de som que parece criado não para ser escutado, mas para ser habitado. “Stillness in Amber Light” encerra o álbum com uma longa paisagem sonora onde os instrumentos quase desaparecem, substituídos por camadas de ruído ambiente, vozes distantes e uma sensação de suspensão no tempo. É como se a música deixasse de ser música no sentido tradicional, tornando-se uma extensão do silêncio aquele mesmo silêncio que permeia os espaços vazios entre as palavras de Faye Davis.
Com When the Leaves Fall, I'll Be Near, Harifa alcança uma maturidade artística rara para um segundo trabalho. Faye se recusa a repetir fórmulas ou a ceder às pressões de uma cena que muitas vezes exige contundência e velocidade. Em vez disso, ela aprofunda a linguagem que começou a construir em Withering Woods, explorando não apenas a escuridão, mas os tons suaves e tênues que existem dentro dela as sutilezas do outono, o eco das memórias, a presença invisível de quem parte, mas não se vai por completo.
Este álbum é um testamento da força da delicadeza, do poder do sussurro em meio ao ruído. É uma obra que não busca aplauso, mas reverberação íntima. Faye Davis, como Harifa, se firma não apenas como uma artista do black metal, mas como uma compositora de atmosferas, de espaços emocionais, de limiares.
Ao final da audição, resta não apenas a beleza do som, mas o rastro que ele deixa como pegadas leves sobre a terra molhada, como folhas que caem sem fazer alarde. When the Leaves Fall, I'll Be Near não termina quando a última faixa acaba. Ele continua reverberando no interior de quem ouviu com atenção. E é justamente aí que reside sua grandeza.
O que torna Harifa especialmente interessante é a figura por trás do projeto: Faye Davis.Natural de Devon, Inglaterra, Faye é a única integrante de Harifa, responsável por todos os aspectos do projeto desde sua fundação em 2025.Ela compõe, grava, produz e interpreta todas as faixas, imprimindo uma identidade sonora intensa e autêntica ao seu trabalho .
Faye Davis adota uma abordagem DIY (faça você mesmo), assumindo o controle total de sua produção musical.Essa independência artística permite que ela explore livremente suas ideias e mantenha uma coerência estética em seu trabalho.A produção do EP Withering Woods segue uma estética Depressive Black Metal , reforçando o espírito underground da obra e conferindo uma textura orgânica às músicas .
Além de sua atuação musical, Faye mantém uma presença discreta nas redes sociais, preferindo deixar que sua arte fale por si.Essa postura reforça a autenticidade de sua proposta e contribui para o misticismo que envolve seu trabalho.Em sua conta no TikTok (@hxrifa), ela compartilha trechos de suas músicas e insights sobre o processo criativo, oferecendo aos fãs um vislumbre de sua jornada artística . A expectativa agora é para futuras apresentações ao vivo e novos lançamentos que possam expandir ainda mais o universo sonoro que Faye começou a construir com este EP de estreia.Seu trabalho é uma adição bem-vinda e revigorante ao panorama musical atual, especialmente para aqueles que buscam autenticidade e profundidade em suas experiências auditivas.
À medida que Faye Davis continua a desenvolver sua identidade artística, é interessante observar como ela equilibrará as influências tradicionais do black metal com suas próprias experiências e perspectivas.Esse equilíbrio pode resultar em uma evolução sonora que mantenha a essência do gênero enquanto explora novas direções criativas.
Além disso, a recepção crítica e o apoio dos fãs serão fatores determinantes para o crescimento de sua carreira.Se conseguir manter a qualidade e a autenticidade demonstradas em Withering Woods, Faye tem o potencial de se tornar uma figura influente no cenário do metal extremo.
Em um momento em que a música independente ganha cada vez mais espaço, artistas como Faye Davis exemplificam o poder da expressão pessoal e da dedicação ao ofício.Sua jornada está apenas começando, e será fascinante acompanhar os desdobramentos de sua trajetória artística nos próximos anos.
Brutus é uma banda belga formada em 2013 na cidade de
Leuven. O trio é conhecido por uma sonoridade crua, emocional e intensa,
que mistura post-hardcore, post-metal, shoegaze, punk e elementos atmosféricos
do post-rock. A combinação de peso e melodia, somada a uma performance
visceral, faz da Brutus uma das bandas mais singulares da cena alternativa
europeia.
Integrantes
Stefanie
Mannaerts – vocalista e baterista
Ela é o coração da banda: canta com intensidade enquanto comanda a bateria
com precisão e fúria. Sua capacidade de manter vocais emocionais e
poderosos enquanto executa batidas técnicas e expressivas é
impressionante.
Stijn
Vanhoegaerden – guitarrista
Responsável por riffs cortantes, texturas amplas e atmosferas que passeiam
entre o peso do hardcore e a ambiência do post-rock.
Peter
Mulders – baixista
Cria linhas de baixo densas e pulsantes, sustentando o peso emocional e
rítmico das músicas. Sua presença no palco é sempre marcada por entrega
total.
Discografia
Burst
(2017)
Álbum de estreia que trouxe a banda ao radar internacional. Temas como
frustração, libertação e introspecção se fundem em faixas urgentes e
diretas. Foi aclamado por sua energia bruta e emocionalidade intensa.
Músicas como "All Along" e "Justice de Julia II" se
destacam pela honestidade crua.
Nest
(2019)
Um passo mais maduro, tanto na produção quanto nas composições. O álbum é
centrado em laços humanos – amigos, família, identidade. Há mais espaço
para nuances, silêncios e explosões súbitas. "War" e
"Django" são exemplos do equilíbrio entre delicadeza e caos.
Unison
Life (2022)
Um dos discos mais aclamados do trio. O álbum mergulha em reflexões sobre
o que significa viver plenamente, encontrar felicidade e suportar o peso
do cotidiano. Com sonoridades expansivas e arranjos mais complexos, faixas
como "Liar" e "Dust" são hinos de vulnerabilidade e
resistência.
Live
in Ghent (2020)
Registro ao vivo poderoso, gravado em um show esgotado na cidade natal da
banda. Captura a intensidade e a energia crua da Brutus no palco, sendo
uma excelente introdução para quem quer sentir o impacto da banda ao vivo.
Estilo e Forma de Tocar
A música da Brutus é profundamente emocional, com variações
dinâmicas marcantes. Começa com uma tensão controlada e explode de maneira
catártica.
As baterias
são o motor emocional: ora tribais, ora explosivas, sempre cheias de
intenção.
As guitarras
alternam entre riffs pesados e ambientes etéreos, criando camadas sonoras
que ampliam a profundidade emocional.
O baixo
atua como uma âncora que segura a intensidade, sendo muitas vezes o elo
entre melodia e ritmo.
Os vocais
de Stefanie oscilam entre o grito rasgado e o canto frágil, sempre com
uma entrega autêntica, capaz de transmitir desespero, força e esperança
numa mesma frase.
Ao Vivo
Os shows da Brutus são conhecidos por sua entrega total. Não
há pirotecnia, figurinos ou artifícios. É suor, luz baixa e emoção no limite. A
banda transforma o palco em um campo de batalha emocional, e o público sente
cada batida, cada grito, cada silêncio.
Stefanie Mannaerts – bateria e vocais
Stefanie é o coração rítmico e emocional da banda, e suas
influências são tão diversas quanto sua performance. Ela cresceu ouvindo desde
punk até pop alternativo, o que se reflete em sua maneira singular de tocar e
cantar.
Influências principais:
Ben
Koller (Converge) – sua forma de tocar é intensa, técnica e explosiva,
algo que Stefanie incorpora nos momentos mais agressivos da Brutus.
John
Bonham (Led Zeppelin) – inspiração para a pegada forte e criativa,
especialmente no uso de viradas dramáticas.
Taylor
Hawkins (Foo Fighters) – energia crua e versatilidade de palco.
Karin
Dreijer (Fever Ray / The Knife) – inspiração vocal e estética,
especialmente no uso de camadas e timbres vocais não convencionais.
Emma
Ruth Rundle & Chelsea Wolfe – referências líricas e de atmosfera:
dor, beleza e vulnerabilidade.
Ela também cita a influência de Stevie Nicks no
aspecto emocional da performance vocal.
Stijn Vanhoegaerden –
guitarra
Stijn é o arquiteto das paisagens sonoras da banda. Seu
estilo combina peso e ambiência, muitas vezes trazendo influências tanto do
metal quanto do post-rock.
Influências principais:
Explosions
in the Sky / Mogwai – uso de guitarras com delay e reverb para
criar atmosferas largas e emotivas.
Russian
Circles – riffs instrumentais densos e hipnóticos.
Deftones
– alternância entre o peso esmagador e momentos suaves e etéreos.
The
Dillinger Escape Plan – estruturas imprevisíveis e tensão rítmica.
Fugazi
– ética DIY e pegada direta, mas inteligente.
Stijn tem um papel importante em manter o equilíbrio entre o
caos e o controle nas composições da Brutus.
Peter Mulders – baixo
Peter segura o chão da banda. Sua maneira de tocar é sólida,
com bastante groove, mas também emocional. Ele reforça tanto a densidade das
guitarras quanto o impacto da bateria.
Influências principais:
Tool
(Justin Chancellor) – linhas de baixo criativas e cheias de textura,
que dialogam com a guitarra de forma melódica e rítmica.
Isis
/ Cult of Luna – peso e atmosfera no baixo, construindo tensão e
liberação.
Refused
– influência comum entre os três membros, especialmente na energia bruta e
na abordagem quase política de composição.
At
the Drive-In – intensidade e urgência.
Peter também é conhecido por ajudar na construção da
identidade lírica e visual da banda, colaborando com Stefanie na criação dos
conceitos dos álbuns.
Convergência de Estilos
Brutus é o que acontece quando:
uma
baterista-vocalista vinda do punk e do indie experimental,
um
guitarrista com raízes no post-rock e metal alternativo,
e
um baixista influenciado por post-metal e art punk
se encontram para fazer música sem se prender a um gênero específico.
Essa fusão de referências permite que o Brutus explore desde
explosões de fúria até momentos de contemplação silenciosa, com autenticidade
total.
Como as Influências se Traduzem no Som do Brutus
Stefanie Mannaerts
O que torna Stefanie única é sua capacidade de traduzir
emoção em cada batida e cada frase vocal. Diferente de muitos vocalistas de
rock alternativo, ela não canta para impressionar — ela canta como se
estivesse exorcizando algo. E isso vem de referências como:
Emma
Ruth Rundle → introspecção e letras confessionais.
Converge
(Ben Koller) → a fluidez com que ela alterna entre padrões caóticos e
momentos de controle total na bateria.
The
Knife (Karin Dreijer) → seu uso não convencional da voz: agressiva,
frágil, cortante.
Você percebe isso em músicas como:
"War"
– onde ela alterna entre gritos e vocal melódico, enquanto mantém uma
bateria tribal e incansável.
"Liar"
– com uma linha vocal quase sussurrada que cresce até se romper em grito
catártico.
Stijn Vanhoegaerden
Stijn tem uma sensibilidade que equilibra o caos do
post-hardcore com o lirismo do post-rock.
Ele usa pedais de delay e reverb para criar camadas
expansivas, mas sabe exatamente quando cortar tudo com um riff sujo e
direto, como fazem bandas como Deftones ou Russian Circles.
Você pode perceber isso em:
"Sugar
Dragon" – começa em um crescendo lento e atmosférico, e termina
numa parede sonora de ruído e emoção.
"Techno"
– riffs angulares e com dissonância lembrando o math-rock ou pós-punk, mas
ainda com muito peso.
Peter Mulders
Peter talvez seja o menos “visível” no som do Brutus, mas é
o que dá peso e profundidade.
Suas linhas de baixo são mais do que acompanhamento — elas
carregam tensão emocional. Ele dá aquele toque de post-metal na
estrutura das músicas, permitindo que a banda construa e destrua paisagens
sonoras lentamente.
Ouça:
"Horde
II" – linha de baixo minimalista e hipnótica, que serve de
fundação para a tensão.
"What
Have We Done" – o baixo comanda o ritmo sombrio e dá densidade
emocional à faixa.
Playlist: As Raízes do
Brutus
Aqui vai uma sugestão de playlist com faixas que refletem as
influências citadas e ajudam a entender o DNA do Brutus:
Stefanie Mannaerts
Converge
– Concubine
Emma
Ruth Rundle – Marked for Death
The
Knife – Silent Shout
Led
Zeppelin – When the Levee Breaks
Chelsea
Wolfe – Feral Love
Stijn Vanhoegaerden
Russian
Circles – Harper Lewis
Deftones
– Diamond Eyes
Mogwai
– Ratts of the Capital
The
Dillinger Escape Plan – Black Bubblegum
Fugazi
– Waiting Room
Peter Mulders
Tool
– Forty Six & 2
Isis
– So Did We
Cult
of Luna – Ghost Trail
Refused
– New Noise
At
the Drive-In – One Armed Scissor
Essa lista mostra o espectro de referências que se
entrelaçam no som do Brutus: emocional, técnico, pesado, atmosférico e real.
Curiosidades sobre o Brutus
1. Stefanie aprendeu a
cantar e tocar bateria ao mesmo tempo por necessidade
No começo da banda, não havia vocalista. Stefanie, que já
era baterista, assumiu os vocais por acidente. Eles não queriam procurar
alguém de fora, então ela disse: “eu tento”. Hoje, isso virou uma das marcas
registradas da Brutus. Ela mesma disse em entrevistas que “ainda está
aprendendo” como fazer isso ao vivo sem perder fôlego — mas ninguém diria.
2. Eles quase não usam
setlists fixos nos shows
Apesar das músicas terem estruturas complexas, a banda é
conhecida por improvisar a ordem ao vivo dependendo do clima do público e da
energia do dia. Isso mantém as performances frescas e instintivas.
3. A banda
canta em inglês, mas fala holandês (flamengo) entre si
Como são de Leuven (parte flamenga da Bélgica), o idioma
nativo é o holandês. No entanto, eles escrevem todas as músicas em inglês, por
ser mais universal e por influência das bandas que escutam desde adolescentes.
4. As letras de
Stefanie são sempre autobiográficas
Stefanie não escreve ficção. Todas as letras do Brutus
partem de experiências pessoais, muitas vezes dolorosas. Ela já disse que não
conseguiria cantar algo que não tivesse vivido. Por isso, os temas das músicas
costumam envolver ansiedade, perda, expectativas, autoimagem e frustrações
internas.
5. A música “Sugar
Dragon” foi inspirada por um colapso mental
Essa música do álbum Nest surgiu após Stefanie ter um
colapso de exaustão durante uma turnê intensa. É uma música longa, atmosférica
e emocional, e serviu como espécie de catarse para ela.
6. Metalheads e fãs de
indie amam a banda igualmente
A Brutus consegue algo raro: agradar tanto o público do metal/post-metal/post-hardcore,
quanto o pessoal mais indie/alternativo/post-rock. Eles já dividiram
palco com Russian Circles, Chelsea Wolfe, Thrice, Deafheaven,
Architects e Amenra, além de fazerem turnês próprias com casa
cheia.
7. O clipe de “War” foi
gravado sem roteiro e em take único
Queriam capturar algo espontâneo, então colocaram Stefanie
num galpão abandonado, com a câmera girando 360º enquanto ela performava a
música ao vivo — não playback. A sensação de urgência no clipe é real.
8. O nome Brutus não
tem um significado direto
Eles escolheram “Brutus” simplesmente porque queriam algo
curto, forte e ambíguo. Não tem ligação direta com o personagem histórico (o
traidor de Júlio César), mas gostam do fato de ser um nome com múltiplas
interpretações possíveis.
9. A arte visual é
quase toda pensada por eles mesmos
Peter Mulders tem forte envolvimento na parte gráfica da
banda. Ele trabalha com design e fotografia e colabora diretamente com artistas
para criar capas, clipes e merchandising. O conceito de Nest, por
exemplo, foi todo idealizado por eles, com a ideia de “criar e proteger um
espaço seguro”.
10. Fizeram turnês
exaustivas sem apoio de gravadora no início
Nos primeiros anos, o Brutus bancava as turnês do próprio
bolso. Dormiam no chão, carregavam equipamento em carros próprios e vendiam
merch no final dos shows. Só depois do sucesso de Burst é que começaram
a receber apoio internacional, especialmente da gravadora americana Sargent
House, que também representa bandas como Chelsea Wolfe, Russian Circles e
Emma Ruth Rundle.
O Brutus é mais do que uma banda — é um grito do fundo do
peito, uma válvula de escape emocional convertida em som. Nascido da cena
underground belga, o trio construiu uma identidade única ao reunir o peso do
metal, a urgência do punk, a melancolia do post-rock e a sensibilidade do indie
alternativo — tudo com uma entrega brutalmente honesta.
Cada integrante carrega suas influências de forma
transparente, mas é na união desses mundos que o Brutus se torna especial. Seja
nas batidas explosivas e vocais intensos de Stefanie, nos riffs
atmosféricos de Stijn ou nas linhas de baixo densas de Peter, há
sempre um fio condutor: emoção pura, sem filtro.
Eles não estão interessados em seguir tendências ou soar
“perfeitos” — eles querem ser reais. E por isso, conseguem tocar pessoas
de diferentes cenas, gerações e contextos.
O Brutus não é uma banda para ouvir distraidamente. É pra
sentir com o corpo inteiro. É música pra momentos de silêncio interno ou
tempestade emocional. É pra quando você não consegue explicar o que sente — e
precisa que alguém grite por você.
O Anguished foi uma banda finlandesa de Black Metal Depressivo formada em 2009, na cidade de Helsinque, por Ana Niemi, mais conhecida pelo pseudônimo Possessed Demoness. A artista não apenas emprestou sua voz cortante e angustiante ao projeto, mas também assumiu as guitarras e o baixo, sendo a mente criativa por trás da banda. Na bateria, contou com o suporte de Mental Penetrator, um baterista de sessão cuja identidade permaneceu envolta em mistério.
Apesar de sua curta trajetória, o Anguished tornou-se um nome cult no underground do Black Metal Depressivo e Suicida (DSBM – Depressive Suicidal Black Metal), sendo frequentemente comparado a bandas como Silencer, Shining, Lifelover e Xasthur devido à sua atmosfera desesperadora, vocais estridentes e letras sombrias.
Desde a sua concepção, o Anguished não se encaixava nas tendências tradicionais do Black Metal escandinavo. Enquanto muitas bandas seguiam temáticas ocultistas, satânicas ou mitológicas, Possessed Demoness canalizava sua música como um veículo para expressar sua própria dor e sofrimento interior.
A proposta musical do Anguished era baseada em riffs frios e repetitivos, batidas secas e implacáveis, e uma atmosfera que beirava o claustrofóbico. O destaque absoluto, no entanto, estava nos vocais de Possessed Demoness – um dos aspectos mais marcantes da banda. Seus gritos dilacerantes e desesperados não apenas transmitiam sofrimento autêntico, mas também tornavam o som do Anguished imediatamente reconhecível.
A artista possuía uma abordagem musical profundamente pessoal, sendo uma das poucas mulheres no Black Metal Depressivo a assumir um projeto quase solo. Sua presença no gênero foi uma afirmação poderosa de que a dor e a miséria expressas pelo DSBM não eram exclusivas de um gênero ou grupo específico, mas sim uma experiência humana universal.
Lançado em novembro de 2010 pelo selo finlandês Hammer of Hate Records, o álbum "Cold" é o único lançamento completo do Anguished e também sua obra-prima. O disco contém oito faixas, todas impregnadas de uma sensação sufocante de solidão, desespero e angústia existencial.
01 - These Gray Days – A abertura do álbum define o tom sombrio do disco, com riffs atmosféricos e a presença arrebatadora dos gritos angustiantes de Possessed Demoness. A música traduz uma sensação de vazio e monotonia, refletindo o título da faixa.
02 - Come to Me Satan – Uma invocação intensa ao lado obscuro da existência, explorando a relação simbólica entre o sofrimento e a busca por respostas no ocultismo.
03 - September Nights – Uma das faixas mais emocionais do álbum, transportando o ouvinte para noites frias e solitárias, onde os pensamentos mais sombrios se tornam inescapáveis.
04 - The Last Trip – Uma composição carregada de temas suicidas, remetendo ao conceito do "último suspiro" antes de partir desta vida.
05 - Depart This Life– Uma continuação temática da faixa anterior, abordando a partida e o desligamento do mundo material.
06 - Tired– Aqui, Possessed Demoness expressa uma exaustão profunda, que transcende o físico e se estende à alma. A faixa transmite a ideia de estar cansado não apenas da vida, mas da própria luta para continuar existindo.
07 - Verivala – Diferente das outras faixas, "Verivala" traz uma conexão com a cultura finlandesa, sendo a única faixa do álbum com um título em finlandês. "Verivala" pode ser traduzido como "Sangue Prometido" ou "Juramento de Sangue", o que sugere uma possível influência histórica ou mitológica.
08 - Cold – A faixa-título encerra o álbum com uma sensação extrema de desolação. O instrumental monótono e os vocais desesperadores criam um ambiente onde a frieza emocional e existencial se tornam palpáveis.
O álbum "Cold" foi muito bem recebido no underground do Black Metal Depressivo, sendo elogiado por sua autenticidade e honestidade emocional.
Após o lançamento de Cold, Possessed Demoness não deu sinais de que o Anguished continuaria a produzir novos trabalhos. Não há registros de turnês ou performances ao vivo, e nenhuma entrevista oficial foi divulgada após o lançamento do álbum.
Muitos especulam que o Anguished nunca foi uma banda tradicional, mas sim uma manifestação artística de Possessed Demoness, algo que ela precisava expressar naquele momento de sua vida. Como muitos projetos no DSBM, é comum que os músicos desapareçam do cenário após um único lançamento, pois a música muitas vezes reflete experiências pessoais intensas e difíceis de reviver continuamente.
Atualmente, o Anguished é considerado um culto underground, especialmente entre os fãs do Black Metal Depressivo e Suicida. O álbum "Cold" ainda é discutido e recomendado por fãs do gênero, sendo reconhecido por sua atmosfera genuína e sua abordagem emocionalmente brutal.
Embora o Anguished tenha existido por um período curto, seu impacto no DSBM foi significativo. Possessed Demoness provou que um projeto de uma única pessoa poderia criar algo profundamente autêntico e visceral dentro do Black Metal.
O álbum Cold permanece como um dos registros mais intensos do gênero, e sua estética minimalista, aliada à performance emocionalmente destruidora da vocalista, garantiu ao Anguished um lugar de destaque entre os nomes do Black Metal Depressivo.
Se Possessed Demoness decidir um dia retornar com um novo projeto ou reviver o Anguished, certamente haverá um público ansioso para ouvir sua próxima manifestação de dor e desespero sonoro.