quinta-feira, 24 de julho de 2025

Entrevista com a banda Labyrinthus Stellarum

 


Entre Ruínas Cósmicas e Realidades Partidas: Uma Viagem com o Labyrinthus Stellarum  


Formada em Odessa, na Ucrânia, em 2021, a banda Labyrinthus Stellarum emergiu como uma entidade sonora que ultrapassa os limites do black metal atmosférico, fundindo paisagens eletrônicas densas com conceitos de ficção científica especulativa. Liderada pelos irmãos Oleksandr Andronati (vocais, sintetizadores, letras, produção) e Mykhailo Andronati (guitarras, co-produção, mixagem e masterização), a banda também contou com Dmytro Bokhan na programação de bateria do álbum Vortex of the Worlds (2024) e com Oleksandr Kostetskyi, guitarrista original até 2023.

Em apenas poucos anos, o Labyrinthus Stellarum construiu uma discografia que convida o ouvinte a uma jornada por realidades paralelas e ruínas cósmicas. O álbum de estreia Tales of the Void (2023) apresentou um universo sonoro desolado e grandioso, onde o niilismo existencial encontra a poeira de mundos esquecidos. Com Vortex of the Worlds (2024), a banda aprofundou seu alcance filosófico e ampliou sua paleta sonora, desafiando ainda mais as convenções do gênero.

No dia 2 de maio de 2025, eles lançaram seu terceiro trabalho, Rift in Reality considerado até agora o mais experimental e diverso da carreira. Combinando faixas épicas e melódicas com momentos de maior agressividade, o álbum marca uma nova fase da banda, inclusive com o uso mais marcante de vocais limpos. A capa, assinada por Mark Cooper, artista conhecido por colaborações com Rings of Saturn e Brand of Sacrifice, reflete visualmente a complexidade do universo sonoro criado pelo grupo.

Nesta entrevista, mergulharemos nas origens, na visão artística e no processo criativo do Labyrinthus Stellarum  uma banda que não apenas faz música, mas constrói mundos.


1. Labyrinthus Stellarum surgiu em meio a uma já sólida cena de black metal ucraniano. Como
vocês descreveriam a formação da banda e o que motivou a criação de um projeto com um conceito tão cósmico e atmosférico?


A formação da banda foi bastante espontânea e, na verdade, não tinha a intenção de gerar novas músicas. Oleksandr Kostetsky apareceu um dia e sugeriu fazermos um álbum no estilo do Lustre. Quanto ao estilo, sempre fomos extremamente ligados à atmosfera do espaço por causa dos filmes, livros e jogos da nossa infância.

2. Desde o início, vocês demonstraram uma forte identidade conceitual e estética. Como é o processo criativo de vocês, desde a composição até a construção das narrativas que sustentam cada obra?


Nosso processo criativo é bastante sequencial. Primeiro, a música começa com um esboço que contém as melodias e riffs mais importantes. Depois disso, criamos as melodias vocais e as letras. Em seguida, ajustamos a música para que funcione melhor com os novos vocais.
Do ponto de vista técnico, o processo é complicado, já que Misha Andronati está na Alemanha e Alex Andronati na Ucrânia. Por isso, nos reunimos via Discord para compor juntos.

3. Tales of the Void apresentou o universo sonoro de vocês com grande intensidade. Quais foram os maiores desafios e descobertas durante a criação do álbum de estreia?


A criação do álbum Tales of the Void foi, de certa forma, como andar no escuro. Nosso objetivo era lançar música, riscar esse desejo da lista. Não esperávamos que o álbum fosse tão bem recebido.
Apesar disso, trabalhamos duro para que ele fosse coeso, com todas as faixas fluindo bem entre si.
O maior desafio foi, sem dúvida, a mixagem, pois não tínhamos muita experiência na época e isso exigiu bastante trabalho.

4. Vortex of the Worlds revelou uma evolução notável na complexidade das faixas e no uso de elementos eletrônicos. Quais novas ideias ou influências moldaram esse segundo trabalho?
Enquanto tivemos inspirações claras para o primeiro álbum, não tivemos nenhuma para Vortex of the Worlds e para o terceiro disco. Queríamos criar algo novo, mais pesado, mais dinâmico e mais eletrônico, mas ainda assim dentro do nosso conceito original.

5. Com o lançamento de Rift in Reality, considerado o trabalho mais experimental e diverso até agora, como foi o processo de composição e gravação desse álbum?
Não houve muita diferença entre o processo do segundo e do terceiro álbuns. Com Rift in Reality, queríamos tornar nosso som ainda mais pesado.
Fomos um pouco inspirados por Lorna Shore, mas sem mudar nossa essência: mais peso, mais diversidade, mais melodia e mais elementos eletrônicos.

6. As letras de vocês são profundamente filosóficas e abstratas, abordando temas como inteligência artificial, decadência planetária e transcendência. Qual é o papel da literatura ou da ciência (especialmente a cosmologia) na construção dessas letras?
No início, nossas letras não abordavam nada específico. Mas a partir do segundo álbum, decidimos tornar cada música parte de uma narrativa contínua dentro do nosso universo.
A ficção científica sempre nos fascinou, desde a infância com livros, filmes e jogos influenciaram nosso amor pelo espaço.
Queríamos escrever letras que não fossem banais, fugindo de temas como amor ou política, mas que ainda assim fossem envolventes.

7. Vocês usam sintetizadores, programações e ambientações espaciais como elementos essenciais.
Como equilibram isso com o peso e a agressividade típicos do black metal?
Isso não é tão difícil quanto parece. Os elementos clássicos do black metal e os riffs não entram em conflito com os sintetizadores eles se complementam.
Nossa música é centrada nos sintetizadores, então os riffs acabam sendo mais espaçados do que no black metal tradicional.

8. O black metal costuma explorar temas religiosos, históricos ou ocultistas. O que levou vocês a direcionar o foco para a ficção científica e o niilismo cósmico?
Não somos religiosos nem antirreligiosos, então nunca pensamos em escrever sobre isso. O mesmo vale para o ocultismo.
Quanto à história, não somos especialistas e achamos mais interessante desenvolver nossa própria mitologia sci-fi.

9. Como a banda tem sido recebida na Ucrânia e na Europa em geral? Vocês sentem que o público se conecta com essa proposta futurista e atmosférica?
Curiosamente, nossa banda é mais popular no Ocidente do que na Ucrânia, provavelmente por causa do idioma em que cantamos.
Mas na Ucrânia também temos um público fiel.
Muitos comentários e resenhas destacam a atmosfera espacial como o principal atrativo: o vazio, o incompreensível, a grandiosidade do cosmos.

10. As apresentações ao vivo de vocês são raras, mas imersivas. Como vocês imaginam a experiência ao vivo dentro desse conceito galáctico? Há planos para novos shows ou turnês?


No momento, ainda não temos uma estética de palco totalmente desenvolvida é algo que precisamos trabalhar para tornar os shows mais impactantes.
Vamos tocar no festival Faine Misto Fest em agosto de 2025, além de outro show em julho. Se possível, faremos uma turnê pela Ucrânia no outono.
Nosso sonho é fazer uma turnê pela Europa, mas a guerra tem impedido isso. Assim que for possível, iremos realizar.

11. Quais bandas ou projetos (dentro ou fora do metal) vocês consideram influências fundamentais para o som e a estética do Labyrinthus Stellarum?


Toda música que ouvimos é uma fonte de inspiração consciente ou inconsciente.
Nos inspiramos muito em artistas que misturam metal com eletrônica, como:

  • Celldweller, Bring Me The Horizon, Rings of Saturn, Starset

No black metal, destacamos:

  • Lustre, Eldamar, Mesarthim, Blut aus Nord,Windveill

Fora do metal:

  • Jean Michel Jarre, Carpenter Brut, Ben Prunty (com destaque para a trilha sonora de FTL)

12. O aspecto visual do trabalho de vocês é marcante. Já consideraram expandir esse universo
para outros formatos como romances gráficos, filmes, jogos ou experiências audiovisuais?


Sim, no futuro gostaríamos muito de criar um livro ou um jogo baseado na nossa história.
São planos a longo prazo, pois no momento não temos os recursos necessários, mas estamos trabalhando no desenvolvimento do nosso universo sci-fi.

13. Que tipo de legado vocês esperam deixar com o Labyrinthus Stellarum? Existe um propósito maior por trás dessa jornada artística pelos abismos do espaço e da mente?


Nosso desejo é fazer o maior número possível de álbuns incríveis, proporcionar emoções e momentos únicos às pessoas.
Mas, acima de tudo, fazemos isso porque nós simplesmente amamos pra caralho fazer música!


País: Ucrânia
Gênero: Black Metal Atmosférico / Cósmico / Experimental
Atividade: Desde 2021
Último Lançamento: Rift in Reality (2025)
Gravadoras: Archivist Records (CD), Northern Silence Productions (Vinil)

Oleksandr (Alex) Andronati – vocais, letras, compositor, mixagem, produção
Mykhailo (Misha) Andronati – guitarras, co-composição, co-produção, mixagem, masterização
Dmytro Bokhan – programação de bateria (Vortex of the Worlds)
Oleksandr Kostetskyi – guitarrista original (2021–2023)

Discografia
Tales of the Void (2023)
Vortex of the Worlds (2024)
Rift in Reality (2025)
Matéria feita por Reinaldo Hilário







My Last Promise – A Funeral of Being (Album 2025)

 



Um disco que não pede licença para entrar, mas sim se impõe como uma confissão. A Funeral of Being, o mais recente trabalho da artista ucraniana Haze sob o nome My Last Promise, é uma jornada dolorosa pelas ruínas do eu. Desde os primeiros segundos, há uma atmosfera que pesa como um quarto trancado há anos, onde cada nota ecoa como um pensamento que já deveria ter sido esquecido, mas que insiste em permanecer.

A produção é crua, quase cruel em sua sinceridade. Guitarras que choram e se arrastam, linhas vocais em agonia, não se trata de técnica, mas de verdade. É uma dor sem ornamento. Em faixas como "Broken Trust" e "Emptiness", a sensação não é de escuta, mas de vigília. Estamos diante de alguém que decidiu não esconder mais nada, mesmo que isso custe tudo. E essa exposição, ao mesmo tempo delicada e brutal, cria uma conexão incômoda, íntima, inevitável.

O álbum todo parece seguir um fluxo próprio, como se a artista tivesse deixado de lado qualquer intenção externa e apenas deixado o que precisava sair, sair. Não há refrãos memoráveis, não há refrões sequer. Há passagens que se repetem não por estética, mas como quem revive lembranças que não consegue silenciar. A melodia, se é que podemos chamar assim, serve mais como sombra do que como luz.

O que mais chama atenção, porém, não é o desespero escancarado, mas sim o silêncio entre os sons. Aqueles instantes em que tudo para e só resta o eco de algo que nunca foi dito em voz alta. Como se cada música fosse uma carta escrita à mão, mas jamais enviada. Um suspiro entre gritos. Um funeral onde não há corpo, apenas ausência.

A arte do disco acompanha essa estética minimalista e escura e não como enfeite, mas como reflexo.
Tudo parece estar no limite, desde os sussurros que quase se perdem até os trechos em que o caos ameaça romper a delicada barreira entre o controle e o colapso. Haze não oferece respostas. Ela também não pergunta. Ela apenas mostra o que sobrou de si, sem piedade, sem filtro. Em “Hurt”, talvez a faixa mais visceral do disco, não há propriamente uma canção, há uma sensação sendo expurgada. É como se estivéssemos ouvindo alguém que não canta, mas tenta se lembrar de como era respirar antes da dor. Cada acorde arrasta consigo a poeira dos dias apagados, enquanto a voz que mais chora do que fala parece sussurrar ao ouvido de fantasmas que já não respondem.

Não se trata de um álbum para ser entendido, muito menos admirado em sua forma técnica. É um trabalho para ser sentido com as vísceras, de olhos fechados. Um ritual de despedida que se repete em loop, como se cada faixa fosse uma tentativa fracassada de deixar ir. A repetição lenta e arrastada das estruturas revela não tédio, mas exaustão. Como quem tenta sair de um quarto escuro e sempre bate na mesma parede.

Em A Funeral of Being se torna mais do que um disco: vira espelho. Um espelho embaçado por lágrimas antigas, que ainda que ainda escorrem, mesmo quando o rosto já se acostumou à secura. Nesse espelho, o que se vê não é um reflexo, mas um rastro como se alguém tivesse passado por ali, tocado o vidro com mãos sujas de lembrança, e desaparecido sem dizer nada. Cada faixa deixa essa impressão de presença ausente, como cartas deixadas em uma casa vazia, escritas por alguém que não esperava resposta.

O silêncio entre as notas começa a pesar mais do que a própria música. Há trechos em que a ausência se torna tão concreta quanto o som. É nesses momentos que Haze revela a verdadeira força do projeto: não é o grito que machuca, é o espaço entre os gritos. É o que não se diz, o que é engolido. É a memória sonora do que nunca foi pronunciado. Como uma voz que tenta emergir, mas afunda a cada tentativa.

O Instrumental, por sua vez, nunca se impõe e ela cede, recua, se dissolve. Guitarras distorcidas que mais tremem do que rasgam, batidas que surgem como ecos, e texturas que parecem suspensas no tempo. Há um tipo de beleza trêmula em tudo isso, uma estética do inacabado, como se o álbum inteiro fosse um rascunho de despedida jamais finalizado.

Em “Emptiness”, a sensação não é só de vazio é de eco. Como se cada som retornasse distorcido, vindo de um lugar onde a vida já não tem forma, apenas contorno. E talvez seja justamente aí que A Funeral of Being encontra sua força maior: não na dor explícita, mas naquilo que é deixado para trás, nos cantos escuros que nos cantos escuros que ninguém ousa olhar porque ali não há resposta, não há luz, não há redenção. Ali só existe o eco de uma existência que já desistiu de tentar fazer sentido.

“A Funeral of Being” não é um disco. É um corpo estendido no meio de um quarto frio. É o suspiro que antecede a ruptura. É o som de alguém que já ultrapassou todos os estágios da dor e agora apenas observa a própria alma, em silêncio, se despedaçando como vidro fino sob o peso do tempo. Haze não canta. Ela sangra. Cada faixa é um corte aberto e profundo, sujo, impossível de costurar.

Esse álbum não quer ser ouvido. Ele quer ser sentido como febre, como enjoo, como vertigem. Ele te
pega pela nuca e te obriga a encarar o abismo que você fingia não ver. E quando você pisca, já está lá dentro, afundando devagar, enquanto a melodia sussurra coisas que ninguém em sã consciência deveria ouvir.

Não há redenção. Não há superação. Não há ensinamento.

Só existe a constatação de que viver é um erro que cometemos todos os dias ao acordar.

E a cada nota... a cada respiro entre ruídos... a cada palavra arrastada para fora de um peito que não aguenta mais carregar sequer a própria existência... o que se entende é que esse funeral não é só do ser. É do sentir. Do crer. Do suportar.

E então, de repente, tudo silencia.

Mas o silêncio não traz paz.

Traz... uma ausência que grita.

BANDCAMP



sexta-feira, 20 de junho de 2025

Rosas, Espadas e Abismos: O Significado Filosófico e os Limites da Arte na Obra de Draugveil

 


Draugveil é um projeto de black metal originário da Ucrânia mas que reside na República Tcheca, idealizado por um único artista que assina com o mesmo nome da banda. O álbum de estreia, Cruel World of Dreams and Fears, lançado em 2025, carrega uma atmosfera reflexiva e sombria, representada tanto em sua música quanto na estética visual que o acompanha. O projeto une a essência do black metal clássico com elementos modernos, traçando paralelos com a segunda onda do gênero, ao mesmo tempo em que flerta com o dungeon synth e uma estética neoclássica.
A capa do álbum é um elemento crucial na construção da narrativa visual e conceitual do trabalho. Nela, Draugveil é retratado usando uma armadura medieval, em meio a rosas vermelhas, segurando uma espada, com maquiagem típica de corpse paint. A composição carrega uma aura de melancolia teatral, remetendo a um herói trágico em um cenário de sonho e pesadelo elementos já sugeridos no título do álbum.

Análise Estética e Referências Artísticas

A imagem na capa evoca a tradição do romantismo sombrio, enquanto dialoga com a pintura medieval e
renascentista. A República Tcheca, lar de Draugveil, possui uma rica herança artística que pode ser vista como pano de fundo cultural para a escolha da estética. Artistas como Josef Mánes e Mikoláš Aleš, conhecidos por suas representações românticas de cenas épicas e medievais, podem ser apontados como influências potenciais, ainda que de maneira indireta.

A figura do artista na capa também traz à mente a teatralidade presente nas obras de Caravaggio, que, embora italiano, inspirou inúmeros pintores da Europa Central com sua manipulação de luz e sombra (chiaroscuro) 1*. Na República Tcheca, esse efeito é visível nas obras de artistas barrocos como Karel Škréta, que explorava temas religiosos e mitológicos com intensa dramaticidade.

Já as rosas vermelhas ao redor do artista simbolizam paixão e sofrimento, reminiscente de temas góticos e pré-rafaelitas. Na República Tcheca, o simbolismo floral aparece frequentemente no trabalho de Alphonse Mucha, ícone do movimento Art Nouveau 2*. Embora Mucha tenha uma abordagem mais delicada e ornamental, sua influência pode ser vista na maneira como o cenário da capa de Draugveil mistura o real e o idealizado.

Por outro lado, a escolha de uma armadura medieval pode ser interpretada como uma alusão direta às tradições cavaleirescas e às lendas da Boêmia, tão profundamente enraizadas na cultura tcheca. Escultores e pintores como Václav Hollar, com suas detalhadas gravuras de cenas históricas, perpetuaram a iconografia da armadura como símbolo de nobreza e resistência, temas que ressoam na atmosfera de Draugveil.

A espada, como objeto central, evoca força e proteção, mas, em um contexto mais amplo, também pode ser vista como um emblema de sacrifício. Este simbolismo é amplamente explorado em toda a Europa Central, com artistas como Peter Paul Rubens (apesar de ser flamengo) representando temas heroicos em cenários igualmente dramáticos.

Além disso, a presença da espada e da armadura na composição estabelece um elo direto com o ethos do
black metal, que frequentemente faz uso de símbolos medievais para evocar ideias de resistência, luta e solidão. A República Tcheca, como um território historicamente marcado por invasões, guerras e resistência cultural, oferece um pano de fundo ideal para essa narrativa. A escolha desses elementos pode ser vista como uma homenagem às histórias de bravura e sacrifício que permeiam a identidade nacional.

A ambientação sombria e os detalhes florais remetem também à dualidade entre vida e morte, um tema recorrente na obra de artistas europeus como Caspar David Friedrich, que frequentemente pintava paisagens melancólicas pontuadas por símbolos de transitoriedade, como árvores secas e ruínas. Essa influência pode ser vista na forma como Draugveil combina o esplendor das rosas com a decadência implícita na expressão do artista e no cenário desolado.

Simbolismo e Narrativa Visual

O posicionamento do artista no chão, cercado por rosas, evoca uma sensação de fragilidade e mortalidade que contrasta com a armadura, tradicionalmente associada à invencibilidade. Essa justaposição sugere uma narrativa implícita: um guerreiro derrotado, envolto na beleza das flores, contemplando o custo da batalha. Essa imagem pode ser interpretada tanto como uma meditação sobre a futilidade da luta quanto como uma aceitação poética do destino.

Na história da arte, o uso de flores em cenários sombrios frequentemente aponta para a ideia de vanitas um lembrete da impermanência da vida e da inevitabilidade da morte. Essa interpretação ressoa profundamente no contexto do black metal, um gênero que muitas vezes explora temas de niilismo, existencialismo e ensinamentos. Ao integrar esses elementos na capa de seu álbum, Draugveil transcende a mera representação visual e cria uma experiência que nos chama à uma reflexão.

Influências Literárias e Filosóficas

É impossível analisar a capa de Cruel World of Dreams and Fears sem considerar as influências literárias e filosóficas que podem ter moldado sua criação. A República Tcheca é terra natal de Franz Kafka, cujas obras frequentemente exploram temas de alienação, absurdo e desespero. A estética da capa, com sua mistura de teatralidade e contemplação, parece ecoar a sensibilidade kafkiana, apresentando uma visão do mundo que é ao mesmo tempo grandiosa e trágica.

Além disso, o título do álbum sugere uma conexão com o romantismo sombrio de autores como Edgar Allan Poe e Mary Shelley, cujas obras frequentemente abordam os limites entre sonho e realidade, vida e morte. Esse diálogo entre literatura e música é mais uma camada na rica tapeçaria artística que Draugveil parece buscar.

A Relevância Cultural e o Black Metal Contemporâneo

No cenário atual do black metal, onde a autenticidade e a identidade cultural são frequentemente debatidas, Draugveil apresenta uma abordagem que equilibra respeito às tradições do gênero com inovação artística. A escolha de elementos visuais profundamente enraizados na cultura e história europeias é um testemunho de sua capacidade de integrar influências locais e universais de forma coesa.

Por outro lado, a controvérsia em torno do uso de inteligência artificial para criar a capa levanta questões importantes sobre o papel da tecnologia na arte. Se, de fato, ferramentas digitais foram usadas, isso diminuiria o impacto artístico da obra ou, pelo contrário, ampliaria suas possibilidades interpretativas? Essa ambiguidade apenas reforça a natureza multifacetada do trabalho de Draugveil e sua relevância no contexto contemporâneo.

No entanto, mesmo que ferramentas tecnológicas tenham desempenhado algum papel na concepção da capa, a essência da composição permanece enraizada em simbolismos clássicos e narrativas profundamente humanas. A possibilidade de que o artista tenha utilizado inteligência artificial para aprimorar ou criar aspectos visuais da capa não diminui sua capacidade de dialogar com tradições artísticas e filosóficas, mas adiciona uma camada de complexidade ao debate sobre autenticidade e inovação no black metal.

Outro aspecto digno de nota é o tratamento das cores e texturas. O contraste entre o preto da armadura, o branco do corpse paint e o vermelho das rosas cria uma paleta cromática que remete diretamente ao simbolismo tradicional do black metal, enquanto reforça a conexão com temas universais como sacrifício, dor e transcendência. Essa escolha de cores também ecoa a tradição do expressionismo europeu, especialmente nas obras de artistas como Edvard Munch, que usavam paletas limitadas para intensificar a carga emocional de suas composições.

A Iconografia da Armadura e sua Relevância Histórica

No contexto da República Tcheca, a presença de uma armadura medieval na capa do álbum pode ser lida como uma referência às complexas narrativas de resistência e identidade nacional. Durante o período medieval, a Boêmia desempenhou um papel significativo na formação cultural e política da Europa Central. Lendas locais, como a de São Venceslau, o patrono do país, muitas vezes representam figuras heroicas trajadas em armaduras, reforçando o simbolismo de proteção e sacrifício.

Além disso, a tradição literária tcheca, com suas frequentes alusões à luta entre o indivíduo e forças opressoras, parece ecoar na imagem de Draugveil como um guerreiro solitário. Essa associação entre história e cultura moderna é uma característica marcante de projetos artísticos bem-sucedidos, e a capa de Cruel World of Dreams and Fears exemplifica essa conexão de maneira poderosa.

O Espaço Negativo e sua Importância no Design

Outro detalhe importante da capa é o uso de espaço negativo, particularmente na área ao redor do artista. O fundo, escuro e quase indistinto, permite que os elementos principais da composição o guerreiro, a espada e as rosas se destaquem, enquanto cria uma sensação de vazio e isolamento. Esse uso do espaço é reminiscente das técnicas de composição de artistas renascentistas e barrocos, que frequentemente usavam fundos escuros para destacar figuras e objetos em primeiro plano.

Esse vazio também contribui para a atmosfera introspectiva do álbum, refletindo a ideia de um "mundo cruel de sonhos e medos" onde a solidão e a incerteza predominam. A ausência de detalhes no fundo convida o espectador a projetar suas próprias interpretações, transformando a capa em uma espécie de espelho emocional.

Intersecção entre Música e Arte Visual

A conexão entre a capa e o conteúdo musical do álbum não pode ser subestimada. O black metal, como gênero, sempre valorizou a integração de elementos visuais e sonoros para criar uma experiência imersiva. No caso de Draugveil, a capa não apenas complementa a música, mas também a expande, oferecendo uma janela para o universo temático do álbum. É possível traçar paralelos entre a estética visual e as estruturas sonoras das faixas, que frequentemente alternam entre momentos de intensidade esmagadora e passagens mais etéreas e meditativas.

Esse tipo de sinergia entre som e imagem é uma característica central do black metal contemporâneo, que continua a evoluir como um gênero profundamente interdisciplinar. Draugveil, com seu enfoque cuidadoso tanto na música quanto na estética visual, posiciona-se como um exemplo notável dessa abordagem integrada.

Relação com a Simbologia Gótica

O caráter teatral da capa também pode ser associado à estética gótica, que sempre privilegiou a fusão entre beleza e morbidez. O uso de rosas vermelhas em um contexto sombrio é um tropo clássico do gótico, evocando a ideia de que até mesmo a beleza mais vibrante está destinada a murchar e desaparecer. Esse tipo de simbolismo é frequentemente encontrado na literatura gótica, como nos romances de Bram Stoker e Mary Shelley, e continua a influenciar as expressões visuais e musicais do black metal.

Essa interseção entre o gótico e o black metal é particularmente relevante na Europa Central, onde as tradições arquitetônicas e artísticas góticas moldaram profundamente a paisagem cultural. As catedrais, mosteiros e castelos que pontuam o território tcheco são testemunhas dessa herança, e sua influência pode ser percebida tanto na música quanto no design visual de Draugveil.

Continuidade e Expectativa

Ao observar a capa de Cruel World of Dreams and Fears, é evidente que ela serve como uma declaração de intenções artísticas para Draugveil. A complexidade da composição visual, combinada com sua ligação aos temas e tradições da República Tcheca, sugere que o projeto tem o potencial de explorar ainda mais profundamente a relação entre música, arte e identidade cultural.
Essa capa não é apenas uma imagem promocional, ela nos faz refletir sobre os limites e possibilidades da arte. Em tempos onde o real e o digital se entrelaçam, onde a autenticidade é questionada e a estética se torna híbrida, surgem questões sobre o papel do artista na era contemporânea.

Até onde vai a arte? Será que ela precisa ser limitada pelas ferramentas que a criam, ou é a mensagem que realmente importa? A composição de Draugveil nos força a encarar o abismo que separa a intenção artística da percepção do público, o que nos leva à conclusão de que a arte, em sua essência, é um espelho refletindo tanto o criador quanto o observador.

Mas há um limite? Se o uso de ferramentas digitais, como a inteligência artificial, for considerado uma “traição” à essência humana da criação, então qual seria o papel do artista em um mundo onde a tecnologia é uma extensão inevitável de nós mesmos? Talvez o limite da arte esteja mais ligado à intenção do que ao meio. Talvez ele resida no impacto emocional, na capacidade de provocar reflexão, ou na habilidade de traduzir o invisível em forma visível.

E, no fim, o que realmente importa: a origem da criação ou o impacto que ela deixa? A arte precisa ser definida por suas raízes ou pode existir apenas pelo que desperta em nós?

1* - O que é o chiaroscuro?

Chiaroscuro é uma técnica de pintura que foi estabelecida e se tornou famosa no período renascentista no século XV.
A técnica é sobre trabalhar com alto contraste entre luz e sombra e requer bom conhecimento de perspectiva, efeitos físicos da luz, brilho e até as tintas usadas. Em outras palavras, é muito complexo e técnica avançada com resultados impressionantes.

2* - A Art Nouveau é um movimento artístico que floresceu entre o final do século XIX e o início do século XX, caracterizado por seu estilo ornamental, curvilíneo e inspirado em formas naturais. O termo "Art Nouveau" significa "Arte Nova" em francês, refletindo a intenção do movimento de romper com as tradições clássicas e acadêmicas da arte, propondo algo inovador e contemporâneo para sua época.



sábado, 7 de junho de 2025

Woods of Ypres – Woods 5: Grey Skies & Electric Light (2012)

 


Woods of Ypres – Woods 5: Grey Skies & Electric Light é um álbum que se apresenta como uma das expressões mais sinceras e melancólicas dentro do metal contemporâneo. Lançado em 2012, após a morte prematura de David Gold, mente criativa e emocional da banda, o disco carrega um peso quase profético em suas letras e atmosferas. É como se cada faixa fosse escrita com a consciência do fim, envolta em uma névoa de reflexão sombria, aceitação e desencanto.

A sonoridade do álbum se distancia do black metal cru dos primeiros trabalhos da banda e mergulha de vez no Doom e no Gothic metal, com passagens melódicas e vocais predominantemente limpos. Há uma clareza na produção que não diminui o impacto das composições, mas ao contrário, expõe cada arranjo com precisão quase cirúrgica. O ritmo é lento, arrastado, como se cada acorde fosse uma etapa de um luto ainda em curso. A bateria, tocada pelo próprio Gold, é contida, cadenciada, marcada pela intenção emocional mais do que pela técnica.

Liricamente, o disco é um mergulho profundo nas fraturas da existência humana. Faixas como "Career Suicide (Is Not Real Suicide)" desafiam convenções e exploram a dor com uma franqueza desconfortável. Em "Adora Vivos", Gold implora que as pessoas valorizem os vivos em vez de apenas reverenciar os mortos, sugerindo uma crítica à forma como lidamos com a memória e o reconhecimento. "Lightning & Snow" abre o álbum com uma sensação de fúria resignada, enquanto "Finality" se aproxima de um tom quase espiritual, aceitando o fim com um misto de tristeza e paz.

O uso de instrumentos menos convencionais para o gênero, como oboé e violoncelo, adiciona uma dimensão atmosférica que eleva o disco a um patamar quase cinematográfico. As melodias são construídas com cuidado, muitas vezes repetitivas, criando um ciclo emocional que prende o ouvinte em uma espiral introspectiva. Cada faixa parece dialogar com a anterior, não apenas em tom, mas em conteúdo, criando um fio narrativo que transforma o álbum em uma jornada única, quase como uma carta aberta ao vazio

existencial que assombra cada gesto, cada decisão, cada silêncio. David Gold não escreve como um poeta que observa a tristeza de longe; ele a vive, a sussurra, a grita em cada verso. Em "Modern Life Architecture", por exemplo, há uma crítica dura à artificialidade das escolhas modernas, à maneira como construímos vidas em torno de metas vazias, esquecendo a essência do que nos torna humanos. Não há aqui redenção fácil, nem esperança camuflada apenas constatações amargas entregues com uma beleza fria e lúcida.

Os vocais de Gold oscilam entre o canto limpo, carregado de resignação, e momentos de gutural
controlado, usados com parcimônia, sempre a serviço da emoção. Essa escolha reforça o caráter meditativo do álbum, que parece mais interessado em fazer pensar do que em provocar. Há peso, sim, mas não aquele que se mede em distorção é o peso da existência, da perda, daquilo que nunca foi dito e agora não pode mais ser.

O equilíbrio entre melodia e desespero é cuidadosamente construído. "Kiss My Ashes (Goodbye)" talvez seja o exemplo mais forte dessa fusão: com seus mais de dez minutos, a música é dividida em duas partes que se complementam, como se narrassem um adeus em tempo real. O instrumental cresce, colapsa, silencia, enquanto a voz de Gold surge como uma presença fantasmal que ainda tenta se fazer ouvir entre as ruínas da memória.

É impossível ouvir esse álbum sem sentir a ausência presente de seu criador. "Woods 5" soa como uma despedida involuntária, mas estranhamente completa, como se tudo o que precisava ser dito já estivesse ali, selado em sons e palavras que ecoam com um tipo de dor que não busca consolo. E é justamente nessa crueza emocional que o álbum se torna tão singular. Ele não oferece alívio. Ele não se desculpa. Ele apenas permanece, como uma sombra persistente no canto da consciência uma sombra que não ameaça, mas também não consola. Ela apenas existe, como a verdade incômoda de que tudo é passageiro e de que o sentido, se existe, talvez esteja no ato de continuar apesar do vazio. "Woods 5: Grey Skies & Electric Light" não é um álbum para ouvir em qualquer momento. Ele exige entrega. Ele exige silêncio. É um trabalho que parece respirar junto com o ouvinte, cada batida lenta do bumbo se confundindo com o coração, cada riff carregado de luto se misturando às memórias pessoais de quem escuta.

Ao longo do álbum, David Gold nunca assume o papel de guia espiritual ou poeta redentor. Ele é mais um confidente que se senta ao lado do ouvinte à beira do abismo, compartilhando dúvidas, cansaços e pequenas epifanias sem a pretensão de resolvê-los. Em "Silver", por exemplo, há uma mistura de sarcasmo e melancolia enquanto ele canta sobre a futilidade das coisas que tentamos acumular para dar sentido às nossas vidas. A crítica está ali, mas sem agressividade é quase como se ele dissesse: “veja, eu também tentei”.

A estrutura das músicas reforça essa jornada emocional. Nada parece encaixado para agradar fórmulas
de mercado ou expectativa de fãs. Há faixas longas, com andamentos que não têm pressa, e há canções curtas, diretas, como lampejos de lucidez. A dualidade entre “Grey Skies” e “Electric Light” céu nublado e luz elétrica sintetiza essa tensão entre escuridão e artifício, entre natureza e tecnologia, entre sentimento e distração. O título do álbum, aliás, é um poema por si só, carregando uma ambiguidade que atravessa cada nota e cada silêncio do disco.

Em termos de legado, “Woods 5” se destaca como uma despedida artística raramente tão completa e autêntica. É difícil não pensar no álbum como uma espécie de epitáfio musical, um documento final de alguém que estava profundamente em contato com sua finitude e, ainda assim, decidido a registrar cada centímetro de sua dor, raiva e aceitação. O impacto do álbum vai além da sua sonoridade ou da sua importância dentro do metal ele toca em algo universal, atemporal. Ele fala da morte sim, mas principalmente da vida, do que ela pesa, do que ela exige, do que ela deixa quando termina.

“Woods 5: Grey Skies & Electric Light” é um espelho embaçado da alma humana, um relicário de pensamentos que muitos têm medo de formular em voz alta. Ele não pede desculpas por sua escuridão; ao contrário, a celebra. É um lembrete brutal de que a existência é frágil, muitas vezes absurda, e quase sempre marcada pela ausência de sentido, de tempo, de consolo.

A tragédia da morte de David Gold, ocorrida meses antes do lançamento do disco, não é apenas um fato biográfico, mas uma presença fantasmagórica que habita cada faixa. Ele morreu em um acidente de carro na véspera do Natal de 2011, aos 31 anos. A violência e a ironia dessa partida repentina apenas amplificam o eco existencial de suas composições, como se o próprio universo tivesse respondido à sua música com um silêncio definitivo.

E ainda assim, ele não se foi, não inteiramente. David Gold permanece vivo entre riffs arrastados e versos sussurrados com amargura serena. Sua voz continua a guiar os que buscam significado nas entrelinhas da dor, sua poesia continua a tocar os que se sentem deslocados em um mundo que gira rápido demais. A arte, como o amor e o luto, tem essa capacidade singular de resistir ao tempo e à ausência. Cada vez que esse álbum é ouvido, é como se David sentasse ao lado de alguém outra vez não para dar respostas, mas para lembrar que, mesmo nas paisagens mais nubladas, há beleza no gesto de olhar para o céu.

“Grey Skies & Electric Light” é, portanto, mais do que uma despedida. É uma permanência. Um testamento de que, enquanto houver alguém disposto a escutar, nenhuma voz se apaga por completo.

 


BANDCAMP


Evadne - The Fragile Light Of Fireflies (2025)


 
Evadne apresenta "The Fragile Light Of Fireflies", um álbum acústico onde melancolia e beleza se entrelaçam em uma jornada sonora intimista. Através de arranjos minimalistas e atmosferas etéreas, a banda reinterpreta e culmina seu trabalho anterior, "The Pale Light of Fireflies", com uma sensibilidade crua e evocativa.

O álbum conta com colaborações notáveis como Jaani Peuhu (Ianai, Mercury Circle, ex-Swallow The Sun), Mark Kelson (The Eternal), Carmelo Orlando (Novembre), Juan Escobar (Wooden Veins, Mar de Grises, Astor Voltaires), Carline Van Roos (Aythis, Lethian Dreams, Remembrance) e Natalia Drepina (Mourneress, Your Schizophrenia), trazendo novas dimensões emocionais à obra.

Mixado e masterizado no Pentasonic Studios por Sergio Peiró, o álbum se desdobra como uma peça delicada e profunda, onde cada acorde ressoa com a fragilidade da existência. A arte, criada por Natalia Drepina, reflete visualmente a essência etérea e introspectiva do álbum, capturando sua beleza melancólica. "The Fragile Light Of Fireflies" oferece aos ouvintes uma nova perspectiva sobre a essência de Evadne.

Ao despir suas composições até o âmago, Evadne revela nuances que antes se escondiam sob as camadas densas do doom melódico. Canções que antes rugiam com peso agora sussurram verdades profundas, transformando-se em confissões murmuradas ao ouvido do ouvinte. As vozes ganham um novo protagonismo, entrelaçando-se com harmonias acústicas que evocam paisagens desoladas, crepúsculos infinitos e a beleza silenciosa da solidão.

A presença dos convidados não apenas enriquece as texturas sonoras, mas aprofunda ainda mais o tom emocional da obra. Cada colaboração é um fio de luz tênue, que se junta ao brilho coletivo dessas pequenas "vaga-lumes" sonoras, iluminando a escuridão com uma luz tênue, porém constante. Há um senso de comunhão melancólica como se todos os artistas compartilhassem uma mesma dor, uma mesma lembrança que ecoa através do tempo.

Mais do que uma simples releitura, "The Fragile Light Of Fireflies" é um renascimento artístico e uma afirmação de que a força também reside na delicadeza, e que mesmo as sombras podem brilhar com intensidade própria. Neste trabalho, Evadne convida o ouvinte a desacelerar, escutar com o coração e permitir que cada nota, cada silêncio, revele algo sobre si mesmo.
Trata-se de um álbum feito para noites solitárias e almas sensíveis. Um tributo à vulnerabilidade, à memória e à beleza que persiste mesmo na mais tênue das luzes.

"The Fragile Light Of Fireflies" é mas uma experiência sensorial que convida à introspecção. Cada faixa surge como um suspiro suspenso no tempo, onde o som se transforma em paisagem e a emoção se desenha em formas quase tangíveis. Ao optar por uma abordagem acústica, Evadne rompe com a expectativa do peso tradicional do doom metal e, paradoxalmente, entrega um disco ainda mais devastador em sua honestidade emocional e ao final da audição, "The Fragile Light Of Fireflies" deixa uma impressão profunda e duradoura, como o brilho de uma lembrança que se recusa a desaparecer completamente. É um trabalho que exige atenção, entrega e, acima de tudo, vulnerabilidade. Evadne demonstra maturidade artística ao abrir mão da grandiosidade sonora para mergulhar no âmago da expressão humana.

Resenha por: Alessandro & Reinaldo

BANDCAMP



Calliophis - Liquid Darkness (Full-length 2021)

 


CALLIOPHIS é uma banda de Death Doom Metal de Leipzig/da Alemanha... que faz um ótimo trabalho ao equilibrar a tristeza pesada, a emoção crua e a melodia. Faixa favorita: Krakonoš....O terceiro álbum da banda alemã aprimora a essência do trabalho anterior, demonstrando da melhor forma o profissionalismo e a habilidade dos músicos em combinar um som denso e limpo com uma performance tecnicamente perfeita. Trata-se de doom death metal do mais alto padrão, cruel e barulhento, mas não desprovido de atmosfera e, principalmente, de individualidade e aura únicas. Música para uma audição reflexiva, para uma nova experiência de sentimentos interiores, complementada por um livreto de 16 páginas lindamente projetado para uma melhor dissolução nas profundezas majestosas de "Liquid Darkness".....Calliophis é uma banda de doom/death vinda da Alemanha e em 2021 eles estão de volta com seu terceiro álbum completo, “Liquid Darkness”. Embora elementos de ambos os subgêneros tenham sido entrelaçados na música, eu diria que a parte doom neste caso é o fator dominante, não apenas por causa do ritmo continuamente lento, mas também pelo foco pesado em harmonias tristes e uma atmosfera profunda e envolvente. Não estou familiarizado com nenhum de seus trabalhos anteriores, mas com base neste álbum, esses cavalheiros são especialistas quando se trata de criar música que é capaz de rastejar sob a pele do ouvinte e deixá-lo para trás com uma mistura de várias emoções.

 Os riffs neste disco são absolutamente montanhosos, altos e monótonos estrondos de desespero
chovendo sobre você. A atmosfera é assombrosa durante todo o tempo de execução de mais de uma hora, contando principalmente com melancolia e tristeza, proporcionadas pelas melodias cativantes das guitarras principais. As músicas frequentemente atingem o auge com as coisas explodindo em uma cacofonia de vocais estrondosos e guitarras contundentes, antes de conduzirem calmamente às seções seguintes. Algumas faixas fluem com uma distinta vibração de funeral doom, mas se expandem para um som absolutamente massivo com alguns riffs de ritmo mais rápido e batidas técnicas de bateria. O resultado final é nada menos que glória monolítica e deve satisfazer cada fã do gênero. A música é absolutamente comovente desde os primeiros momentos da faixa-título, com a grandiosidade prevalecendo em toda a obra, e uma vez que você deixa o álbum exercer seu feitiço sobre você, ele não o deixará ir antes que os últimos acordes tenham desaparecido.

 Calliophis cria um tom muito mais sombrio do que muitos artistas semelhantes, com linhas de guitarra lentas e depressivas apoiadas por acordes principais estridentes e a batida poderosa da seção rítmica. Sempre que eles aumentam o ritmo, eles atacam com alguns riffs de Death-Doom e um groove de andamento médio, combinando brilhantemente com o clima inquietante. Os vocais são realmente impressionantes, exibindo um tom emotivo que contrasta perfeitamente com a instrumentação sufocante. Apesar de as músicas frequentemente ultrapassarem a marca dos dez minutos, há bastante coisa acontecendo para manter o ouvinte engajado. O fluxo das faixas e de todo o álbum é quase impecável, e os Calliophis têm uma sensibilidade fantástica para trechos mais calmos e construídos, frequentemente usados no meio das músicas para criar alguns momentos de reflexão e imersão na névoa......Há muitos elementos louváveis, como as performances incrivelmente talentosas, a composição criativa e variada, bem como o som arrasador. A produção é mais ou menos perfeita e muito dinâmica. As guitarras soam crocantes sem ofuscar as melodias mais frágeis, a bateria tem um bom impacto e o baixo é alto o suficiente para ser reconhecido. Uma mixagem tão polida ajuda a captar cada detalhe e a concentrar-se nas diferentes camadas que fazem "Liquid Darkness" se destacar do resto. Se você procura uma trilha sonora adequada para os dias de outono que se aproximam, não hesite em conferir Calliophis. É provável que você encontre um álbum no qual se sinta totalmente imerso.

Resenha por : Alessandro

BANDCAMP




sábado, 31 de maio de 2025

Resenha Lumnos - Na Santa Paz da Aurora (Álbum 2025)

 



O álbum Na Santa Paz da Aurora, lançado em 2025 pelo projeto brasileiro Lumnos, representa uma obra que dialoga com elementos sensoriais e emocionais, explorando a relação entre o ser humano, o mar e os ciclos da natureza. Este trabalho celebra os dez anos de existência do projeto, conduzido por Laurent, e se apresenta como uma síntese madura da sonoridade que ele vem desenvolvendo desde seus primeiros lançamentos.

Logo na primeira faixa, Na Praia da Espera, o ouvinte é imediatamente conduzido para um cenário onde as camadas de guitarras etéreas se entrelaçam com batidas que evocam tanto força quanto contemplação. A escolha dos timbres, a cadência dos riffs e a utilização de vozes abafadas criam uma atmosfera onde parece possível ouvir o vento cortando a pele e o som das ondas se misturando com distorções. A construção da música não é linear, mas cíclica, alternando momentos de peso com passagens mais etéreas, quase meditativas.

Costa Azul, a segunda faixa, aprofunda essa jornada sensorial, utilizando acordes que soam como
verdadeiros chamados para a vastidão. Aqui, há uma clara influência do blackgaze, especialmente no uso das guitarras em muro de som, que permanecem flutuando durante quase toda a composição. A bateria, embora precisa, não busca protagonismo; ela se apresenta como uma âncora rítmica, permitindo que as melodias se desenvolvam com fluidez. É possível perceber como Laurent consegue transformar sentimentos em paisagens sonoras, algo que poucos artistas dentro do metal atmosférico conseguem realizar com tanta coesão.

A faixa-título, Na Santa Paz da Aurora, talvez seja o ápice do disco. Desde os primeiros segundos, uma linha de guitarra suave estabelece um clima quase cerimonial. As camadas de som vão se sobrepondo de maneira orgânica, e a voz, muitas vezes utilizada mais como instrumento do que como portadora de palavras, surge como um sussurro distante, quase um eco vindo do horizonte. A música parece descrever não apenas um amanhecer literal, mas também um amanhecer simbólico, onde se percebe a chegada de uma nova fase, um novo estado de espírito. É um convite ao ouvinte para permanecer, ouvir e se deixar levar.

Por fim, Janaína encerra o álbum com uma abordagem que mescla melancolia e reverência. O título, uma referência direta à divindade das águas no sincretismo afro-brasileiro, traz consigo uma carga simbólica que se reflete diretamente na construção musical. Diferente das faixas anteriores, há aqui uma presença mais marcante de linhas melódicas limpas, que soam quase como uma despedida. É como se a embarcação, após atravessar mares revoltos e amanheceres dourados, finalmente ancorasse em um porto seguro, onde o silêncio e a brisa salgada tomam conta do ambiente.

O que torna este álbum particularmente notável é a sua capacidade de transcender os limites tradicionais do metal atmosférico. Laurent não se prende às fórmulas mais convencionais do gênero; ao contrário, ele expande as fronteiras, incorporando elementos que remetem tanto ao post-rock quanto a ambiências típicas de música eletrônica ambiental. Há uma preocupação evidente com os detalhes: cada reverberação, cada silêncio entre notas, cada mudança de dinâmica parece pensada para provocar sensações específicas.

Além da parte sonora, a escolha da temática é profundamente poética. Inspirado pelas viagens e relatos de Amyr Klink, o álbum funciona quase como um diário de bordo, onde cada faixa representa uma etapa da travessia. Mas não se trata apenas de uma travessia física. As letras, embora muitas vezes soterradas pelas camadas instrumentais, revelam passagens que falam de entrega, de coragem diante do desconhecido, de se lançar ao mar mesmo quando o destino ainda é incerto.

A produção do álbum é outro ponto que merece destaque. Apesar de ser um projeto independente, a qualidade sonora é extremamente bem cuidada. As guitarras soam cristalinas quando necessário e densas quando a proposta exige. A bateria, mixada de forma a nunca sobrepor os elementos melódicos, mantém um equilíbrio perfeito, reforçando os climas sem nunca roubar a cena. O baixo, embora mais discreto, cumpre um papel fundamental na sustentação harmônica e na criação de texturas mais profundas. A participação de Falcão nas guitarras e vocais adiciona uma camada extra de riqueza, trazendo variações sutis que ampliam o leque de emoções presentes no trabalho.

Ao longo dos seus 28 minutos, Na Santa Paz da Aurora se estabelece não apenas como um álbum, mas como uma experiência sensorial e quase cinematográfica. Cada faixa funciona como um capítulo de uma história maior, onde o ouvinte não é apenas espectador, mas também navegante dessa travessia. A escolha de finalizar o álbum com Janaína não parece aleatória; ela fecha um ciclo, remetendo tanto à origem quanto ao destino, ao retorno para casa após uma longa jornada de descobertas e superações. O silêncio que surge após os últimos acordes é carregado de significado, como se o próprio mar, após horas de conversa em ondas e ventos, simplesmente decidisse se calar, permitindo que apenas a memória do que foi vivido ecoe no espaço vazio.

O mérito de Na Santa Paz da Aurora está justamente nessa capacidade rara em transformar som em paisagem, música em memória e ruído em silêncio cheio de significado. Laurent entrega mais do que um álbum; ele oferece um não a escutar passivamente, mas a embarcar. E quem aceita, percebe que não há volta. As melodias não se desfazem com o fim da última faixa. Elas permanecem reverberando, como sal na pele depois de um dia inteiro no oceano, como a lembrança do cheiro da maresia que insiste em não ir embora.

Ao final da jornada, não é apenas o artista que se revela. É o próprio ouvinte que se percebe diferente alguém que, mesmo sem ter colocado os pés em um barco, navegou. Navegou por dentro. E ali, na aurora que o álbum sugere, há paz. Não uma paz vazia, nem um silêncio qualquer. Mas aquele tipo de paz que só se encontra quando se encara o horizonte sem pressa, aceitando que nem todo caminho precisa ter um destino definido. Algumas viagens existem apenas para lembrar que estar à deriva, às vezes, é a única forma de realmente se encontrar.

BANDCAMP



Walking Over Strings - A música como sobrevivência emocional no limite do silêncio

  Walking Over Strings nasce na Venezuela como um gesto solitário de resistência estética e sensível. Não é uma banda no sentido tradiciona...